Literatura, Resenhas

24 de abril de 2015

Divórcio

Como fisgar um homem sem poupança

É a história de uma jornalista que se casa com um escritor. A jornalista é ambiciosa, bonita, manipuladora. Uma pessoa que negocia com o mundo — isso quando precisa negociar; em geral, ela e o mundo estão na mesma página. O escritor é o oposto disso, mas eles se casam. Não é um namoro que desemboca em casamento: é um casamento que se materializa mais ou menos do nada, embora nenhum dos personagens pareça dado a atos impensados. Poucos meses depois, o escritor encontra o diário da jornalista e descobre que ela não está contente. Descobre, na verdade, que ela o despreza. Ele surta, há um divórcio. O livro traz o escritor às voltas com sua separação, tentando se recuperar. O pilar dessa recuperação é a desconstrução da imagem da mulher. Como tantos ex, ele precisa odiá-la. O problema não pode estar nele, não pode estar no amor, tem que estar no objeto.

O enredo de Divórcio, de Ricardo Lísias, é sem dúvida interessante. A trama se dá entre esses dois personagens que vivem da escrita. Uma vive de reportar a verdade, mas é uma mentira. O outro vive de vender mentiras, mas é verdadeiro. Entre eles, um diário, esse relato que pressupõe a ausência de leitor e de apuro, uma escrita bruta, honesta, desinteressada.

A ideia de privacidade e da ausência de um leitor — uma figura frequentemente incorporada ficcionalmente na literatura moderna — reforça a credibilidade do relato, uma vez que ninguém precisa manipular um leitor que não existe. É interessante pensar nessa personagem, nessa mulher que se constitui apenas através de memórias deturpadas e de um diário; um diário usado como prova contra si mesma.

O uso de diários e outros documentos era um artifício que transmitia verossimilhança ou até um lastro de verdade para as narrativas do século 18. É frequente que os livros dessa época insiram o aparecimento de um diário, carta ou documento como estratégia para dar ao leitor a possibilidade de testemunhar de forma mais direta a experiência de um indivíduo que passou por aquilo e usa a autoridade de quem viveu os fatos para revelar seu sentido. A ideia da “evidência” e da experiência individual como garantia de sentido era forte naquela época. É dessa crença que surgem os pilares do jornalismo moderno: a ideia de que o indivíduo que “foi ao local” pode nos dizer “o que de fato aconteceu”.

Não parece coincidência que a personagem jornalista seja justamente a vítima dessa investigação, desse relato direto que é subvertido no Divórcio por um narrador extremamente manipulador que apresenta trechos cortados e editados do suposto diário de outrem para reforçar uma tese que ele já traz pronta desde a primeira página: a velha tese de que a mulher é uma oportunista dissimulada que se aproveita da nobreza de sentimentos e da paixão cega de um homem bom.

Acontece que o recurso do diário é usado em uma época em que esses elementos já não têm o peso que tinham no século 18. A crença na prova, na repórter que vai a Cannes, que entrevista Brad Pitt e por isso pode falar com propriedade, está datada. Quando esses artifícios surgem em um romance de 2011, eles aparecem em uma chave invariavelmente rebaixada.

A única forma de salvar Divórcio da vala do mimimi de ex-marido é fazendo um gesto interpretativo vigoroso — alguns diriam forçado — no sentido de ler o protagonista Ricardo como um Bentinho e supor que uma outra instância narrativa (o autor implícito) aponta para suas limitações. Essa é a leitura que busquei fazer. Se concordo com ela, honestamente, não sei dizer.

Os defeitos atribuídos ao narrador tanto por ele mesmo quanto pelos fragmentos do diário não colocam em xeque sua autoimagem. Pelo contrário, são defeitos que corroboram com a construção de escritor comprometido com seu ofício, culto, viril, pessoa simples, despretensiosa, boa, leal e desapegada que ele parece fazer de si mesmo e que tenta vender ao leitor. Entre os defeitos listados no livro está andar demais, ler demais, não ter vivido, não ter um apartamento, nunca ter feito uma poupança, não ter um carro, não saber dirigir, comportar-se em restaurantes chiques como se estivesse no restaurante da esquina. Esse último “defeito” é interessante pois sintetiza a ideia de que Ricardo é um sujeito homogêneo, uno, igual a si mesmo, de uma cara só. Não há nele uma cisão entre pessoa pública e privada, não há nele uma capacidade (ou disponibilidade) de negociar com o meio.

Já os defeitos atribuídos à personagem feminina tanto pelo narrador quanto por seu próprio diário destroem a imagem pública que ela tão cuidadosamente procura construir. A imagem de jornalista séria, inteligente, competente, segura, simpática, bem relacionada, viajada e sensual que ela busca passar é inconciliável com a mulher arrogante, arrivista, filisteia, desesperada e cruel que surge no diário e nas acusações do narrador. O próprio ato de escrever um diário em pleno 2011, sendo ela uma pessoa que vive da escrita, mostra que a personagem reconhece e problematiza a cisão entre seu eu interior — com sentimentos nem sempre edificantes — e a face que ela apresenta publicamente. Manter um diário é reconhecer que não somos quem vendemos ser. Em uma época em que até os blogs estilo diário publicado deram lugar à versão mais pasteurizada de nós mesmos exposta no Facebook, manter um diário verdadeiramente privado é quase um ato de rebeldia.

Sua ex-mulher sabe que é mais de uma enquanto Ricardo defende ser um só. Sob essa perspectiva, o Divórcio de que trata o título pode se referir não apenas ao fim do casamento dos protagonistas mas também a essa separação radical entre os dois lados da personagem feminina, partes inconciliáveis de uma mesma pessoa, e ao choque de expectativas que o narrador tem ao descobrir esse eu privado por meio do diário. Por ser uno, Ricardo não consegue compreender a multiplicidade da mulher. Por ser coerente até em seus defeitos, não consegue compreender suas incongruências.

O leitor tem pouco acesso ao que Ricardo pensava de sua mulher antes da leitura do diário. Mesmo nas cenas que ele recorda momentos anteriores à leitura, a mulher que surge ali é indubitavelmente a mesma do diário, com os mesmos defeitos mal disfarçados em uma capa de civilidade tão fina que o leitor duvida da inteligência do narrador por não ter notado antes — ou de sua parcialidade. Incapaz de juntar os vestígios da “pessoa para quem ele disse sim”, o que ele faz é rememorar cenas do passado assegurando-se de que a mulher do diário já estava ali o tempo inteiro.

Ricardo acusa a ex-mulher de ser de algum modo oportunista, de ter se casado por interesse, embora o próprio narrador reconheça que é ela quem tem dois apartamentos e pode pagar o restaurante da Torre Eiffel, enquanto ele é um homem sem poupança. O enredo do casamento por interesse é exposto em seu ridículo em um contexto de relativa equidade de gênero e valorização do trabalho. Por ser um homem sem posses, Ricardo está convencido de que o casamento visava um interesse em seu capital simbólico como escritor relativamente bem sucedido e como intelectual. O narrador busca mostrar o quanto ele possui cultura e por isso é diferente dos demais consumidores e trabalhadores. Acontece que a forma como isso é posto termina por igualar essas experiências. A mala cheia de livros que ele traz de Buenos Aires não parece menos vulgar que a mala cheia de alfajores de um turista convencional. Na cena em que o protagonista tem uma overdose, a recitação de um rosário em latim por um de seus amigos é posta em equivalência direta à mostra do corpete empreendida por outra amiga, indicando que no fim das contas saber latim e mostrar o corpete têm exatamente a mesma finalidade para aqueles personagens:

“Éramos quatro excelentes alunos. O Léo começou a recitar um rosário de orações em latim e a [X] mostrou que estava de corpete. Os dois casais se formaram.”

Por trás da pompa de intelectual desprendido, Ricardo é um homem que viaja para destinos comerciais como Paris, Nova York e Buenos Aires e que consome essas cidades ao modo de um turista qualquer; que mora em bairros de elite e come em suas padarias; que frequenta festas da intelligentsia paulistana e faz social como todo escritor que reconhece a utilidade dessas redes de relacionamento e que, por fim, escolhe se casar com uma repórter de cultura de um jornal importante, com uma mulher que entrevista Brad Pitt. Se é bastante verossímil no contexto do romance que a personagem feminina tenha se casado visando e fetichizando o capital cultural de seu marido, parece igualmente verdadeiro que Ricardo tenha se casado buscando esse mesmo capital simbólico e social. E não atrapalha o fato de ela ainda por cima ter dois apartamentos.

Desejar é uma coisa difícil, nem sempre a gente tem condições de bancar o próprio desejo. Uma das formas de realizar um desejo sem ter que bancá-lo é terceirizar o desejo, ou imaginá-lo como uma imposição externa. Ricardo terceiriza seu desejo de pertencimento para a mulher. Nada mais útil a um escritor desprendido do que uma mulher ambiciosa. Ele é uma dessas pessoas que estão sempre fazendo as coisas pelas outras. Aquele tipo que casa com festa, mora em bairros caros e vai ao restaurante da Torre Eiffel, mas sempre “arrastado”. Ele é melhor do que a vida que leva.

O enredo do casamento por interesse se complica no caso da obra de Ricardo Lísias pois tratamos aqui de uma mulher que se encontra em posição econômica superior à de seu alvo matrimonial e em situação social semelhante à dele. Mas Ricardo é do tipo de homem que se considera portador de um tesouro místico, que ele elabora vagamente como sendo seu capital cultural e seu falo. Para esse tipo de homem parece perfeitamente plausível que uma mulher com dois apartamentos se case por interesse com um homem sem poupança.

Em alguns trechos do diário, a mulher parece inconformada com a situação financeira de Ricardo: com sua falta de bens, com o fato de ele não poder pagar por determinados consumos que, na cabeça dela, constituem a vida adulta e o casamento em si. Essas insatisfações não parecem de ordem prática, e, sim, fruto de uma crença mais profunda de que ter um homem que atenda a certos requisitos financeiros faz parte do pacote casamento. Ela escreve, por exemplo: “Fui eu que paguei o restaurante da Torre Eiffel e também o Alain Ducasse. Eu posso dizer que isso é casamento?” Em outros trechos, no entanto, ela se coloca como uma mulher extremamente independente e orgulhosa de seus feitos financeiros e profissionais. Não se trata de uma mulher que queira casar com um homem rico para obter mais conforto ou distinção material, e sim de uma mulher que parece enxergar na pobreza uma diminuição do homem em si e que busca um casamento em que os papéis de gênero sejam mantidos ao menos como encenação. Em suma, trata-se de uma mulher independente, mas que quer que o marido pague a conta do restaurante da Torre Eiffel, esse símbolo fálico em forma de ponto turístico.

Em dado momento, a protagonista afirma que casou com um escritor em busca de aventura, mas que Ricardo acorda todos os dias no mesmo horário. O casamento com Ricardo era uma maneira de conciliar desejos contraditórios. Se a própria ideia de casamento traz uma noção enfadonha de segurança e estabilidade, o plano de casar com um artista vem para balancear a caretice e dar um pouco de ação. Ricardo, no entanto, frustra ambos os propósitos: não é um homem do tipo provedor sequer em pequenos atos simbólicos como pagar uma conta de restaurante, tampouco traz aventura. É um personagem que poderia trabalhar muito bem os conflitos do homem moderno, perdido em seus novos papéis, tentando estabelecer uma forma de ser masculino que esteja menos associada ao ato de prover.

Me parece importante pensar na influência do editor nesse livro. Na segunda parte do romance, a reviravolta ficcionalizante empreendida pelo narrador cheira a encomenda de editor comprada pelo autor apenas para evitar críticas (e processos). A mão do editor entra mais incontestavelmente (e de modo desastrado, na minha opinião), na contracapa do livro, onde se lê: “Casado há quatro meses, o narrador de Divórcio encontra acidentalmente o diário da esposa”. Ora, se o diário foi encontrado acidentalmente ou de propósito me parece ser um dos problemas centrais do romance. Ter um narrador que não consegue admitir nenhum ato de vilania, nem mesmo o gesto de invadir a privacidade da mulher para pegar o diário e que conta uma história tortuosa para explicar como chegou ao diário é a pista primordial de sua não confiabilidade. Fica difícil lidar com um livro cuja questão central é a parcialidade do narrador se não podemos contar sequer com a imparcialidade da orelha do livro.

Ricardo é um personagem tão incapaz de reconhecer responsabilidades que, diante do fato de que pegou o diário de uma outra pessoa e invadiu sua privacidade, pensa o seguinte: “Que tipo de pessoa deixa no caminho do homem com quem se casou há quatro meses um diário com esse conteúdo? Repeti a pergunta várias vezes. Com quem me casei?”

O que chamo de reviravolta ficcionalizante na segunda metade do livro é a súbita defesa (dentro do romance) de que o material que temos em mãos é um material ficcional sendo que até então o romance trabalhava com uma identificação completa entre personagem e autor, com a ausência de um filtro de ficção. Ou seja, havia um pacto autobiográfico na primeira metade que é subitamente quebrado na segunda parte. Isso poderia ser interessante, se não fosse mal feito nem soasse a arremedo legalista. O livro muda de projeto e essa mudança é mal arranjada.

Para piorar, tem toda aquela história de corrida meio Murakami brasileiro que não acho bem realizada. Cheira a autoajuda. A superação da dor psíquica sendo materializada na superação física do atleta é muito clichê. A imagem das “pernas fortes” simbolizando a capacidade de andar com as próprias pernas é bamba.

Por fim, queria falar sobre a conta dentro do diário, imagem que considero a mais forte e bem-sucedida do livro. Ricardo encontra o diário e entra no campo da pequenez num dia em que precisa pagar uma conta que se encontra justamente entre as páginas do diário. A conta no diário rebaixa a personagem feminina, mostra que ela está no reino do comezinho, do dia de semana, das contas a pagar. Um mundo onde o nosso Ricardo só dá as caras para fazer antropologia.

Juliana Cunha
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