Textos

10 de agosto de 2015

Enquanto somos jovens

Envelhecer é um fato, mas já não há fatos

Philip Roth diz que envelhecer não é uma batalha, é um massacre. Em Enquanto Somos Jovens,  Noah Baumbach fala de uma tentativa de resistência a esse massacre. Assim como em Frances Ha e O Solteirão (Greenberg), Baumbach aborda crises de idade ao lidar com personagens de algum modo aquém do que se espera — ou do que eles próprios esperavam — do momento de vida em que se encontram.

Mas nenhum dos protagonistas — Frances Ha, Greenberg ou o casal de Enquanto Somos Jovens — é propriamente velho, o que aponta para o ridículo de uma sociedade de um lado obcecada por juventude, de outro tão fechada em pacotes sobre o que deve ser cada etapa da vida que qualquer dissonância é uma falha a ser corrigida.

Baumbach não trata das questões mais profundas da idade, da decadência física (expressa no máximo em uma artrite), do medo da morte, da contemplação da própria finitude (em suma, do massacre ao qual Roth se dedica), mas sim do julgamento social, do sentimento de inadequação e fracasso daqueles que não conseguiram ser o que uma pessoa de [insira aqui uma idade que pode ser tão nova quanto 27 anos] deveria ser.

(Eu assisti a Enquanto Somos Jovens no Laura Alvim, um cinema carioca apinhado de velhinhas. Era terça à tarde e um grupo de sete comeu um salgado amanhecido, bebeu um café e se acomodou na sala. Ao fim do filme, uma delas pegou a bengala, ajeitou o casaco um pouco desnecessário para o inverno do Rio e disse: “Mas que tédio essa gente de 43 se achando velha”. Nada como um pouco de perspectiva).

Cornelia (Naomi Watts) e Josh (Ben Stiller), o casal protagonista que entediou minhas companheiras de sessão, tentam se convencer das vantagens de não ter filhos. Eles falam sobre a liberdade de poder viajar a qualquer momento, sair, transar, mas a verdade é que pouco saem, pouco viajam e não há uma só cena de sexo ou amasso bem dado entre eles. Não ter filhos, em última instância, parece funcionar como uma reserva de juventude. Eles não são inteiramente adultos porque não tiveram filhos. É isso que eles próprios e os amigos recém procriados parecem achar.

O nascimento da filha dos amigos Marina (Maria Dizzia) e Flatcher (Adam Horovitz, o rapper Ad-Rock, dos Beastie Boys, uma escolha de elenco um pouco irônica) muda o esquema de coisas para Josh e Cornelia, que sentem uma pressão adicional para “formar uma família”. Marina e Flatcher passam a encarnar os adultos típicos: ela usa óculos e cardigãs de mãezinha, ele parece ter sido atropelado pelo caminhão da paternidade a cada vez que aparece na tela, a casa deles tem um clima adulto. Já Josh e Cornelia buscam juventude no que podem: ele usa bolsa a tiracolo, ela alterna entre roupas muito sérias e outras muito joviais, ambos são apegados a todo tipo de tecnologia.

Até que conhecem Jamie (Adam Driver) e Darby (Amanda Seyfried) e descobrem que tecnologia é coisa de velho. O casal hipster de vinte e muitos anos quer ser adulto como antigamente. Ao adotar símbolos de gerações passadas como jogos de tabuleiro, vinis, fitas cassete, máquina de escrever e sorvetes artesanais e adiantar rituais (casamento), o que eles fazem é se “envelhecer” apenas para ressaltar sua juventude. Jamie e Darby têm “algo como 25, 26, 27 anos”, na conta esperançosa de Josh. Ou seja, a mesma idade da Frances Ha do filme anterior, que se sentia velha e derrotada. Mas eles não são velhos e derrotados porque conseguiram tudo e um pouco mais do que se espera dessa idade.

Em mais de uma cena, Darby diz que os americanos adoram o formato “antes e depois” e é isso que o filme mostra. Antes e depois dos filhos, antes e depois dos quarenta, antes e depois (numa longa cena em que a tela é cortada e mostra os dois casais ao mesmo tempo) da tecnologia, com a ironia adicional de que os jovens aqui representam o “antes”.

Fora a questão da idade e das gerações, o filme tenta abordar a autenticidade e como ela se articula em uma sociedade em que tudo é produzido. No filme, vemos três gerações de documentaristas — o pai de Cornelia, Josh e Jamie — lidando de maneiras diferentes com a ideia da verdade. Para Josh, verdade é sinônimo de pegar a câmera e filmar os fatos “brutos”. Quando se conhecem, Jamie pergunta como ele filmou a “cena dos cachorros” em seu documentário e Josh diz: “Eu virei para o câmera e disse: filme aqueles cachorros”. Já Jamie está acostumado à encenação do espontâneo e não vê problemas éticos em montar narrativas em cima dos fatos. Ele quer fazer um documentário sobre um soldado que participou de um episódio especialmente traumático durante a Guerra do Iraque, mas não vê problemas em enfeitar a história fingindo que o encontro com o soldado foi espontâneo, que eles eram colegas de escola, que a mãe teve câncer. Para sua geração, a história de um evento coletivo não basta, é preciso que isso se mescle a uma história pessoal de fácil empatia, a uma busca, a um antes e depois. O soldado tampouco vê problemas na encenação — e por que veria? Ele combateu no Iraque, uma guerra marcada pela lógica gameficada.

O que Baumbach tenta fazer é #problematizar a questão da espontaneidade em uma época em que civis se comportam como publicitários de si mesmos e a espontaneidade é apenas uma forma de narrativa, uma forma de fazer o público (e todos foram convertidos em público para todos) fruir melhor uma história tão montada quanto qualquer outra.

A forma como o filme trabalha isso é um pouco capenga, assim como a vilanização excessiva da cultura hipster. No fim, o modo de vida valorizado é o mais yuppie e conservador possível; e falar mal de hipster em 2015 é chutar cachorro morto.

Jamie é o grande vilão da história, mas será que é mesmo? É um jovem sem contatos tentando uma carreira disputada em Nova Iorque. Ao contrário de Josh, ele não tem um sogro poderoso por trás, não tem um tutor. Ao contrário de Cornelia, não pode viver de produzir os filmes do pai. Ele é ambicioso e não tem um grande senso de ética, mas é fácil ser um bastião da moral quando suas questões materiais estão previamente resolvidas e seu lugar no mundo é garantido diante do menor sinal de talento ou esforço. Josh está filmando a mesma coisa há dez anos e não paga o câmera que trabalha com ele, mas mora num apartamento confortável e leva uma vida em que o dinheiro parece uma abstração.

A cena em que Josh vai até a casa do câmera é o único momento em que, por um segundo, ele se dá conta de que as outras pessoas têm uma vida a ser mantida e uma relação pragmática com o trabalho e com o dinheiro. Mas esse entendimento logo se esvai e ele convida o “amigo” — que ele aparentente sequer sabia que tinha filhos — para um novo trabalho sem pagá-lo pelo anterior, explicando que dessa vez irá pagá-lo com a venda de seus CDs. Antes disso, quando ainda estão filmando o documentário de Josh, o câmera pergunta sobre o pagamento e ouve sempre que o dinheiro está enrolado por conta do possível divórcio dos investidores. Ou seja, enquanto os ricos se dedicam a arte e aos problemas privados. Observar a relação entre Josh e o câmera ajuda a colocar a vilania de Jamie em perspectiva.

Enquanto Somos Jovens perdeu uma boa chance de terminar na cena em que Cornelia e Josh conversam na fonte do Lincoln Center. Ele diz que se deixou seduzir pela admiração de Jamie porque aquilo lhe fez se sentir adulto. “Pela primeira vez, não me sentia uma criança imitando um adulto”. Cornelia diz que também se sente uma farsa, eles comem um bolo. Se tivesse encerrado ali, quem sabe minhas companheiras de cinema teriam gostado mais.

Juliana Cunha
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