Textos

24 de Fevereiro de 2015

Entre as coisas

Tem um preceito zen que diz que precisamos colocar espaço entre uma coisa e outra. Acredito nisso, espaço entre uma coisa e outra. Espaço físico, por exemplo. Desespero desses projetos arquitetônicos que se gabam de tornar minúsculos cubículos “funcionais”. Viver não é agrupar artefatos de modo funcional. Não é fechar a porta que esconde a cama e abrir a que desdobra uma mesa com cinco minúsculos banquinhos quando as visitas chegam. Me parece que uma casa deveria ser qualquer coisa além disso. Uma casa deve ser mais do que uma cova engenhosa para vivos.

Espaço temporal, também. Colocar meses entre os acontecimentos. Espaço entre as pessoas parece um bem necessário. Espaço entre o trabalho e o outro trabalho. Entre o trabalho e o lazer. Não sair do trabalho direto para o bar. Colocar qualquer coisa entre duas atividades. Viver também não devia ser otimizar o tempo. É importante não otimizar o tempo. O fato de as coisas caberem não significa que elas deveriam estar lá. Agendas e apartamentos estão aí para provar a diferença.

No cinema, a função dos créditos e dos trailers — para além da publicidade, para além de dizer que Rafael fez a fotografia — é colocar um espaço entre a ficção e a realidade. Um espaço entre o sujeito que chegou da rua e o espectador. São dois sujeitos, precisam ser reconhecidos como tal.

Certa vez fiz uma matéria sobre uma câmara de gel em uma academia de ginástica. Uma parafernália futurista onde você entrava, deitava e ficava, com luzes azuis ao redor. Era como dormir por oito horas, explicava o fabricante. Era como renascer, dizia uma frequentadora. Uma neurologista disse: as pessoas precisam não fazer nada. Quem vender isso, vai ficar rico. Aqui em casa, a câmara atende pelo nome de rede e não funciona tão bem, não substitui oito horas de sono. Pelo contrário, exige um sono sem cronômetro e cochilos sem premeditação. Também não renasce ninguém. Basta deitar nela para se sentir velho, muito velho, com um longo passado que vai e volta. Não estamos ricos, mas é importante não funcionalizar a rede.

 

* Imagem: ilustração de Katie Harnett

Juliana Cunha
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