Textos

12 de janeiro de 2016

Ilustração:
Bárbara Scarambone

Má fase

Começo a trabalhar com a possibilidade disso não ser uma fase. Talvez isso que viemos apelidando de Má Fase seja a vida ela mesma. Diante do fato de que tudo passa, é com esperança e arbitrariedade que pegamos um certo período da vida —um período que, se você pensar com algum rigor, talvez se resuma a um par de meses— e estabelecemos que aquilo é “a nossa vida”. Quando falamos em “Nossa Vida” nos referimos a um ponto muito específico em que as coisas não estavam boas demais pra ser verdade, mas talvez estivessem boas demais para se manter verdade. Fintavam nossa descrença por um triz. Era o quase bom demais. O bom demais com uma espinha na testa.

Você já está em casa, pare de tentar voltar para casa. E também para as calças, rotinas e contas. Uma das formas de voltar pra casa é aceitar que estamos em casa. Queria te dizer com certo pesar que a sala é esta mesmo e que, na cozinha, a barata também está em casa. Queria te dizer que estamos todos em casa, incluindo o vizinho que você não gosta e aquele que até simpatiza, mas que na tarde passada te deu um oi um pouco seco.

 

* Este texto foi originalmente publicado em nosso fanzine Tempo; Achados e Perdidos.

Juliana Cunha
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