Cinema, Resenhas

02 de setembro de 2014

Magia ao Luar

Um truque repetido

Em Magia ao Luar, Stanley, o mágico, diz que o segredo do ilusionista é não repetir seus truques, pois uma hora alguém acaba percebendo. Woody Allen, no entanto, é conhecido pela repetição de truques, como se cada filme tentasse elaborar o que um outro já disse. Isso acontece, por exemplo, com Crimes e Pecados, O Sonho de Cassandra e Match Point: três enredos cercando o tema do crime sem justiça. Já Magia ao Luar retoma a linha de pensamento de Zelig ao propor o amor como chave de resolução para a vida do protagonista e ao estabelecer sua superioridade diante da ciência e da medicina. Se em Zelig o amor é o que mais se aproxima da cura, em Magia ao Luar ele é o que tem para hoje em termos de sobrenatural.

A história retoma ideias trabalhadas em Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos, um filme que dizia que só os tolos eram felizes. Aqui, no entanto, há uma certa esperança para os espertos: você pode entender a irracionalidade do amor, pode aceitar a arbitrariedade e a indiferença do universo e ainda assim entregar-se ao feitiço terreno que é se apaixonar. No fim, ter a pessoa que você ama batendo à sua porta é quase tão incrível quanto se comunicar com o “mundo invisível” através de batidinhas no teto. A repetição desse sinal (a batidinha) reconecta o pedante Stanley à ingênua viúva Catledge: quando o assunto é amor, somos todos idiotas falando com o nada e esperando que ele confirme nossas expectativas infantis.

Além de ser mágico, o protagonista do filme se ocupa de desmascarar videntes e outros farsantes (tarefa a qual Harry Houdini também se dedicava mais ou menos no período em que a história se passa) e é ele próprio uma farsa: um inglês fantasiado de chinês para lucrar em cima do fascínio europeu pelo Oriente e da fama dos mágicos chineses. Para Houdini, era seu dever enquanto ilusionista denunciar os charlatães, aqueles que fingiam que seus truques eram algo além de talento e esforço, justamente os dois pontos que Stanley levanta em sua discussão com Howard no final da história. Para ele, o que o diferencia do amigo menos bem-sucedido é o talento e as horas que passa trancafiado, estudando seus truques. Ironicamente, a lenda diz que Houdini morreu pelas mãos de um fã que, por ter acreditado que ele era de fato um super-homem, resolveu socar a barriga do mágico repetidas vezes durante um truque de resistência. Às vezes o talento e o esforço assumem uma forma tão maravilhosa que é mais fácil acreditar em mágica.

Ao falar de seu amor por Sophie, Stanley recorre a aspectos físicos (olhos, sorriso), reforçando sua crença nos cinco sentidos, no que os olhos podem ver. Por outro lado, a lógica cartesiana lhe diz que ele deveria casar com Olivia, sua noiva culta, sensata e indiferente, e que Sophie deveria casar com Brice, um jovem bonito e milionário, um partidão para “uma menina ignorante vinda de uma cidade de nome ridículo”. Não faz sentido que Stanley prefira Sophie a Olivia, mas faz ainda menos sentido que Sophie prefira um coroa resmungão a Brice. O que Stanley oferece a Sophie, além do imponderável da paixão, é a possibilidade de ser aceita enquanto fraude. Viver com Brice seria um esforço entediante para manter sua mentira mediúnica, mas também para manter-se na posição farsante de musa ideal para serenatas de ukulele. Um esforço desgastante para ocupar a posição de objeto idealizado.

Como em outros filmes de Woody Allen, uma certa vulgaridade acompanha os super-ricos e Brice parece uma versão anos 1920 do Tom Hewett de Match Point: roupas pomposas, ócio, vaidade, um ar forçado de tradição e uma educação superficial que serve apenas para entreter jantares. Note que mesmo quando Stanley acredita piamente que Sophie é uma paranormal, a prova viva de que o mundo tem mais a oferecer do que imaginávamos, ele diz para ela que seus talentos podem lhe render algum dinheiro, “claro que não tanto quanto o dos Catledge”. Um pequeno lembrete de que talento e esforço podem te levar longe, mas a mágica da economia opera de outros modos.

A mágica de Magia ao Luar é aquela mesma que Wei Ling Soo faz em seu show e que tanto fascina Howard: é permitir que os personagens, aos olhos do público, mudem de lugar, que troquem de posição, que saiam de um sarcófago e sentem em uma poltrona. É esse movimento que vemos em cena: vemos Stanley sair do pedestal de artista e investigador para sentar-se na poltrona de mero mortal passível de cair em truques, passível de ser enganado por gente menos brilhante que ele. O protagonista, que antes olhava as estrelas assustado com sua pequeneza diante do universo, resolve abraçar essa pequeneza, desvencilhando-se de sua reputação e aceitando que a falta de sentido penetre sua vida.

Uma batidinha para sim, duas para não.

 

Juliana Cunha
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