Literatura, Resenhas

29 de novembro de 2014

Não sou uma dessas

Quem de dentro de si não sai

Uma amiga em comum avisa Lena Dunham que seu namorado virtual — para ela uma entidade bastante palpável — morreu. Sua primeira e única pergunta é: ele falou algo sobre mim?

É triste ver uma pessoa limitada pela incapacidade de sair de dentro de si. Sendo essa pessoa uma escritora, o quadro fica, além de triste, empobrecido. A autoficção é um recurso interessante e usar material da própria vida e subjetividade é um truísmo, mas um escritor sem empatia e desinteressado pelo mundo lá fora tem pouco a entregar, especialmente quando a sua experiência de vida é tão limitada quanto a de uma garota branca de 28 anos, criada entre escolas construtivistas de Nova Iorque e sem a vida interior de uma Sylvia Plath. Essa visão curta de Lena, que em Girls por vezes aparece problematizada, é entregue sem elaboração em Not that kind of girl. Diferentemente do seriado, onde há uma instância narrativa (a direção) que parece saber mais do que as personagens e aponta para suas limitações, no livro temos apenas Lena às voltas com suas pequenas questões, aparentemente incapaz de dar um passo para fora de si. Em determinado ponto do livro, quando Lena descreve um ex-namorado tão autocentrado que não conseguia sequer perceber quando ela chorava, é esquisito pensar que ela não estabeleça nenhuma relação consigo mesma. Em outro momento, quando percebe que não amou nenhuma das pessoas com quem se relacionou, é angustiante ver que como a autora — revirando seu passado e afetos — não consegue concluir que talvez haja um problema ali. O problema, como apontou Vinicius de Morais, talvez seja que “quem de dentro de si não sai vai morrer sem amar ninguém”. Essa falta de empatia limita a perspectiva da narradora e encarcera o talento de Lena para a escrita em uma armadura de ego.

A tradução do título do livro para o português não foi favorável. Não sou uma dessas expressa com todas as letras uma atitude de competição e superioridade em relação às outras mulheres que Not that kind of girl traz, só que de forma mais sutil. O título em inglês também poderia apontar para um afastamento em relação a um modelo idealizado de mulher ou para o distanciamento entre a autora do livro e a personagem do seriado, um esforço para deixar claro que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa; exceto pelo fato de que essa última separação praticamente inexiste. Hannah Horvath é apenas uma versão levemente exagerada da Lena Dunham do livro. E Lena Dunham talvez seja apenas uma Hannah Horvath sortuda.

A qualidade estética dos textos deixa a desejar. Não é o tipo de livro que você larga no meio, aborrecido. Ele é redondo, como não poderia deixar de ser. Mas a elaboração estética da coisa é equivalente a de um blog razoavelmente bem escrito, o que certamente não é um elogio para um livro que custou 3,5 milhões de dólares. Lena narra episódios que não têm brilho próprio o suficiente para valerem por si e o faz com um apuro formal mediano, o que resulta num livro cheio de experiências pessoais até que interessantes, narradas de um jeito até que bem contado, mas que para por aí. A estrutura dos textos lembra crônica de blog. O livro é como a reunião de posts de um blog que nunca existiu. Seu mérito, para além do entretenimento, está em falar sobre assuntos que afligem mulheres jovens de hoje: sexo, relacionamentos, trabalho, corpo, expectativas, fracassos. Dentro de todas as suas limitações, é um livro bem escrito, divertido e que fala sobre hoje.

A questão talvez não seja Lena — aparentemente, é isso que ela tem para entregar agora e não é de todo mau —, mas a expectativa sobre ela, que é desproporcional e nos leva a procurar algo mais onde há apenas uma pessoa muito jovem e privilegiada falando a partir de seu umbigo. Definitivamente, uma dessas.

Por fim, queria deixar uma citação de Roxane Gay em Bad Feminist que soma a qualquer debate sobre Lena e sua produção:

“Nós colocamos muito peso na cultura pop, especialmente quando algum artefato pop de algum modo se distingue por não ser terrível. Pouco antes do lançamento de Missão Madrinha de Casamento, por exemplo, houve muito debate sobre como o filme estava desbravando novos territórios, como, oh, mulheres são engraçadas de verdade. Dá para acreditar? Havia muita pressão sobre esse filme. Missão Madrinha de Casamento tinha que ser bom se qualquer outra comédia direcionada ao público feminino quisesse ter a chance de ser produzida. Este é o estado das coisas para as mulheres no entretenimento, tudo está sempre por um fio.

[…] Há um outro artefato pop direcionado às mulheres no qual depositamos uma grande responsabilidade hoje em dia: o seriado Girls, de Lena Dunham, transmitido pela HBO. A série estreou com um enorme hype. Quase todos os críticos abraçaram a visão de Dunham e o jeito como ela narra a vida de quatro meninas de vinte e poucos anos que navegam aquela zona cinzenta entre a faculdade e a vida adulta. Eu não sou o público-alvo de Girls. Não fiquei particularmente encantada com os três primeiros episódios nem com as duas primeiras temporadas, mas a série me deu muito o que pensar. Isso conta para alguma coisa. A escrita é frequentemente esperta e inteligente. Eu ri algumas vezes durante cada episódio e reconheci de que forma o seriado está desbravando novos caminhos. Admiro o modo como a personagem de Dunham, Hannah Horvath, não tem o corpo típico que normalmente vemos na televisão. Há solidez nela. A vemos comer com entusiasmo. A vemos foder. Assistimos a personagem suportar as pequenas humilhações que tantas mulheres jovens têm de suportar.

Vemos a vida de um tipo de garota real e isso é importante. É incrível que uma mulher de vinte e cinco anos de idade escreva, dirija e estrele seu próprio programa para uma emissora como a HBO. É igualmente triste que isso seja tão revolucionário a ponto de merecer menção. Uma geração é um grupo de indivíduos que nasceu e viveu ao mesmo tempo. No piloto do programa, Hannah Horvath explica aos pais por que eles devem apoiá-la financeiramente. Ela diz: ‘Eu acho que eu poderia ser a voz da minha geração. Ou, pelo menos, de uma geração… Em algum lugar’. Nós temos tantas expectativas; estamos tão sedento por representações autênticas de meninas que só ouvimos a primeira parte dessa afirmação. Ouvimos que Girls deveria falar para todas nós”.

 

Juliana Cunha
Leia mais textos de Juliana aqui.