Textos

25 de março de 2013

Sonho de uma noite de verão

Quando Nina Horta e Danuza Leão começam a falar sobre empregadas domésticas, se prepare que vai vir pérola. Essas duas senhoras formam hoje o núcleo duro do elitismo entre os colunistas da Folha. Esqueça Luiz Felipe Pondé ou João Pereira Coutinho: é nas colunas de Nina e Danuza que mora o elitismo hardcore, em seu estado bruto, sem disfarces ou elaborações. É lá que se confraternizam numa eterna conversa de elevador as madames decadentes da nossa classe alta, rancorosas por terem perdido privilégios que antes eram quase direitos constitucionais de sua classe social, a exemplo da cobiçada empregada mensalista que dorme no serviço e vive às margens do patrão.

Nina e Danuza me fazem lembrar com tristeza dos tempos em que o Brasil tinha um outra cronista que gostava de falar de empregadas: Clarice Lispector. Vários de seus contos tinham empregadas com personagens centrais, a exemplo das histórias de A Descoberta do Mundo. Outros livros, como A Paixão Segundo G.H. problematizavam a relação entre patroa e empregada.

Nos textos de Clarice —  tanto nas ficções quanto nas crônicas —  a própria autora não se coloca como um exemplo a ser seguido, como a patroa ideal. Pelo contrário: vários deles deixam entrever seus preconceitos de classe e sua dificuldade em lidar com aquela pessoa estranha que vivia em sua casa, para lhe servir.

Em A Mineira Calada, por exemplo, vemos o episódio em que uma das empregadas da escritora, Aninha, quer porque quer ler os livros da patroa, que menospreza sua capacidade intelectual:

“Um dia de manhã estava arrumando um canto da sala, e eu bordando no outro canto. De repente — não, não de repente, nada é de repente nela, tudo parece uma continuação do silêncio. Continuando pois o silêncio, veio até a mim a sua voz: ‘A senhora escreve livros?’ Respondi um pouco surpreendida que sim. Ela me perguntou, sem parar de arrumar e sem alterar a voz, se eu podia emprestar-lhe um. Fiquei atrapalhada. Fui franca: disse-lhe que ela não ia gostar de meus livros porque eles eram um pouco complicados. Foi então que, continuando a arrumar, e com voz ainda mais abafada, respondeu: ‘Gosto de coisas complicadas. Não gosto de água com açúcar’”.

Mesmo depois de ouvir que a empregada não gostava de água com açúcar, Clarice dá a ela um romance policial que ela havia traduzido —  ou seja, uma aguinha com açúcar. Aninha lê, mas volta e responde: “Gostei, mas achei um pouco pueril. Eu gostava era de ler um livro seu”.

Nessa crônica, Clarice desestabiliza a diferença de classe entre patroa e empregada, desmascara seu próprio preconceito e mostra que a situação da escritora também não é a de uma vida feita somente de trabalhos intelectualizados: assim como Aninha limpa casas para viver e é mais do que uma trabalhadora manual, Clarice tem que traduzir livrinhos policiais para viver, mas não se resume a isso. Não sei que diabos Danuza e Nina fazem para viver, mas elas certamente se resumem a isso.

Ontem, em sua coluna no jornal, Danuza Leão atacou a “PEC das empregadas”, uma tentativa de assegurar direitos trabalhistas básicos às empregadas domésticas, os mesmos que os trabalhadores de empresas já têm. Ela compara o esquema brasileiro ao esquema de “países mais civilizados” [palavras dela], como Estados Unidos e França. Para a colunista, “a ideia de dar auxílio creche e educação para menores de cinco anos dos empregados é sonho de uma noite de verão, pois se os patrões mal conseguem arcar com as despesas dos próprios filhos, imagine com os da empregada”.

De onde Danuza tirou que uma pessoa que mal consegue prover educação para os próprios filhos deveria ter uma empregada mensalista? A única forma de assegurar a uma classe média falida o “direito essencial” a ter uma empregada doméstica é sujeitando mulheres pobres a remunerações pífias.

Eu e grande parte dos jovens de classe média da minha geração fomos parcialmente criados por mulheres que abdicaram de sua privacidade e vida individual para morar na casa de patrões, frequentemente sem carteira assinada. Muitas delas criaram seus filhos dentro do ambiente de trabalho, em condições pouco propícias para o desenvolvimento da autoestima de uma criança. Fico feliz em saber que se eu tiver filhos eles serão criados em um outro esquema. Será mais difícil e caro para mim e é também por isso que a minha geração tem menos filhos e mais tarde, mas será indiscutivelmente melhor.

Quando era adolescente, jantei na casa de um amigo cuja empregada tinha um filho de seis anos. Em dado momento a mãe do meu amigo disse que Vitor, filho da empregada, só vivia doente, até que se mudou para a casa dela e passou a beber “água boa”. Ela creditava à água de sua casa a saúde de ferro que o menino apresentava. O comentário foi feito na frente do garoto e de sua mãe. Essa é uma criança que cresceu pensando que devia até sua falta de resfriados à patroa de sua mãe. Imagino que água nenhuma repare essa distorção.

Em janeiro, conheci uma garota de 17 anos com quem iniciei uma amizade —  sou dessas que fazem amizades com garotas de 17. A menina era inteligente, tocava quatro instrumentos e era fã de Bob Dylan. No meio de uma conversa qualquer ela contou que seus amigos caçoavam dos erros de português da empregada. “Mas caçoam de piada, sabe? Imitando e tal. Ela sabe que é brincadeira”.

A conversa evoluiu e descobri que a tal empregada ia na casa da garota todos os dias, mas não tinha carteira assinada. Ela achava normal porque era “um esquema de trabalho informal”. Ela não sabia que isso era fora da lei. Não sabia que se a empregada fosse mais de duas vezes por semana na casa dela a mãe era obrigada a pagar FGTS, férias e décimo terceiro. Ela achava que mãe tratava Maria muito bem e ficou surpresa quando eu disse que Maria poderia levar até o violão dela embora caso acordasse para a vida e fosse em busca de seus direitos.

O “sonho de uma noite de verão” de viver em um mundo do trabalho senão justo ao menos legalizado exige vigilância diária. Passo boa parte dos dias em uma bolha de pessoas legais e inteligentes e frequentemente acho que questões como a empregada merecer ter os mesmos direitos que a faxineira de uma empresa já foram vencidas. Mas não foram. E é por isso que eu tenho um pequeno derrame cerebral cada vez que vejo o jornal ao qual dediquei dois anos da minha vida —  sem carteira assinada, sem férias e sem décimo terceiro, como tantos jornalistas fazem —  publicar uma besteirada dessas com a desculpa esfarrapa de ser plural.

 

* Imagem: still do filme The Help (Histórias Cruzadas), inspirado no romance de Kathryn Stockett, que também reflete sobre este tema.

Juliana Cunha
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