Textos

16 de outubro de 2013

Ilustração:
Thiago Thomé

Um lastro de ameaça

No dia em que a gente brigou mais feio, eu passei pela rua Itacolomi e vi um casal brigando. Eram um homem e uma mulher separados por dois carros estacionados, gesticulando freneticamente não um para o outro, mas cada um deles para uma plateia invisível sentada com pipocas imaginárias e tudo bem na calçada oposta. Passei e assumi a posição do público. Pedi licença, desliguei o celular.

O homem eu conheço bem: é aquele guardador de carros que pensa que é o Jardel. A mulher é uma senhora que fica sempre ali, sentada naquela rua. A título de praticidade, eu diria que ela era uma mendiga, mas a verdade é que naquela rua não passa vivalma e ela fica sentada num canto tão escuro, tão escondido que você só percebe que é uma pessoa quando já está quase pisando na mão dela.

Eles brigavam virados para mim, cada um descendo o sarrafo em seus próprios demônios e eu pensei “toda briga é assim, cada um descendo o sarrafo nos próprios demônios”. O casal diante de mim apenas perdeu a trava social que nos faz virar um para o outro antes de cuspir toda a merda que vem de dentro. Relacionar tudo que se vê e tudo que se lê com a própria experiência assim de modo tão direto é a nossa forma de apequenar o mundo, de dar uma dimensão Higienópolis à experiência humana. É a mania referencial dos idiotas: tudo é porcamente cifrado e tudo fala sobre mim. Um casal briga: isso é sobre mim, é uma briga da família. Tudo eu já conheço e de tudo eu me apodero.

Embora individuais, as brigas da rua Itacolomi tinham um lastro de ameaça ao outro. Como se no meio do monólogo os atores piscassem um para o outro e reconhecessem: eu não sou um ator, talvez não seja o Jardel, talvez eu seja um mendigo, eu estou na rua Itacolomi.

Você escreve de um jeito tão autoconsciente que me dá coceiras. Eu leio e sei que o destinatário da mensagem não sou eu, mas uma versão muito mais velha de mim que possa rememorar e pensar “até que ele não era de todo mau”.

 

Juliana Cunha
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