Textos

05 de dezembro de 2013

A distração de Pedro

Chamava-se Pedro.

Seu corpo era forte, sempre havia sido. Nunca foi criança, nasceu um adulto pequeno, olhos que nunca sorriam, rosto que envelhecia num corpo que esticava e continuava o mesmo. Morava numa cidade pequena, interior de Minas. Sempre levou tudo muito a sério. Os pais, a escola, os deveres de casa, depois o trabalho, a família, e também as ideias, os desejos, o futuro, e também a vida – nada estava ali para brincadeira.

Gostava de sua imagem no espelho.

Nunca foi homem de cuidar da aparência, a barba feita com navalha e sem espuma, cabelo lavado com sabão, pele áspera como os olhos e a voz. Só via seu reflexo por descuido, mas que orgulho tinha daquele reflexo olhado de canto – nele estava um homem. Um homem forte. Um homem oposto a mulher, a bicho e a menino – um homem completo, que se opunha a tudo, não se parecia com nada e era o dono do mundo.

Era um homem que mandava.

Mandava nos na mulher, nos filhos, nos empregados e em si mesmo, principalmente em si mesmo, porque em seus próprios domínios não podia ser nada que não fosse senhor. Era assim que vivia, era assim que se via e que as coisas precisavam ser – ele segurando bem segurado qualquer pessoa que tentasse discordar lá fora e qualquer pensamento que tentasse voar lá dentro.

Tinha ideias duras.

A respeito da mulher, dos filhos, dos empregados, da fazenda, dos bois, do prefeito, do vento, da chuva, da infância, da morte, do tempo, da dor. Ideias tão duras que talvez não pudessem ser chamadas de ideias, mas molduras, molduras invisíveis nas quais ele enfiava à força as coisas que via. Os pensamentos conviviam espremidos, tortos, sufocados. O reflexo no espelho continuava intocado, visto de canto, mas visto como sempre.

E então a esposa morreu. Os filhos casaram e se mudaram. Os pais morreram, os irmãos brigaram. Pedro ficou sozinho.

Os olhos de Pedro continuaram áridos. Lágrimas só nublariam o espelho à sua frente, água só empenaria suas molduras interiores e era melhor seguir com a mesma cabeça sobre o mesmo corpo, o mesmo domínio sobre os mesmos órgãos, o mesmo espírito, os mesmos pensamentos. Era Pedro. Não podia deixar de ser Pedro. E se quisesse? Não queria. E, de qualquer forma, não podia. Não saberia.

Um dia, Pedro se distraiu.

Foi durante um filme. Pedro não via filmes. Os filmes só passavam na frente dele, desimportantes naquela tela longínqua. Mas, nesse dia, ele viu. Entrou no filme e o filme entrou nele. Fundiram-se numa coisa só. E Pedro chorou.

Depois daquele filme, Pedro nunca mais foi o mesmo.

 

* Imagem: Kai Fehler.

Liliane Prata
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