Textos

23 de fevereiro de 2015

A nossa casa

— Cresci sem ouvir uma lágrima dos meus pais, sem presenciar um grito, um só grito que fosse – ela diz assim que entra no consultório.

Estão só as duas: ela e a estranha de óculos. Ela não se sente tão bem como pensou que iria se sentir, mas resolve falar do mesmo jeito, como se estivesse se sentindo bem, como se não houvesse ali uma estranha.

— Mas havia lágrimas. Havia gritos. Quando eu saía, eles estavam lá. Molhando e ensurdecendo a casa. Eu voltava e sobrava pra mim aquela casa, uma casa surda.

Não há separação sem dor, por mais serena que seja. Mas a separação dos meus pais foi, para mim, insípida. Sem cor. Indolor. Não a vi passando. Ela passou por mim e, como todo mundo ali, não tive direito a lágrimas ou gritos. Segurei meu pranto e minha voz.

Me segurei.

Cresci com dificuldade de ver a paleta acinzentada das cores, apavorada com gritos que rompessem um silêncio que não era branco, mas embranquecido. Fiquei alérgica ao mau do mundo, a menor das poeiras me era tóxica.

E agora a mãe sou eu. E agora estou me separando. E agora eu não queria, mas estou escondendo dos meus filhos o meu pranto. Sorrindo às pressas perante a visita da tristeza. Fugindo enlouquecida de qualquer discussão, que discussão o quê! Fugindo de qualquer ruído na frente deles. Fico arrasada. Mesmo dentro da minha própria casa, sou 100% civilizada.

Eu vim aqui pra isso, sabe pra quê? Para aprender a desaprender o que aprendi. Racionalmente, eu sei das coisas. Eu não sei você, mas racionalmente, ah, racionalmente eu sou outra! O que eu sinto é que é a questão. Mas dá pra cuidar do sentimento usando sentimento ou a base do tratamento aqui é pela via da razão? Escrevendo, eu sei de tudo. Escrevi uma carta para os meus filhos lerem quando forem maiores, posso ler pra você?

“A vida pode ser um mar de rosas. Esqueçam as pétalas e os espinhos: olhem o mar. Há mares que são tempestuosos, às vezes calmos, às vezes cheios de escuros e de perigos. Não se afogue, aceite: é assim que os mares são. Há buracos nas paredes, há ranhuras no chão, a mais pontiaguda das agulhas é capaz de tecer a mais delicada das roupas. Uma casa silenciada é melhor para uma criança do que uma casa em que os adultos estão brigando, enlouquecendo à luz do dia. Mas uma casa com silêncios, doçuras e gritos é o mais precioso dos lares. Uma casa com imperfeições não grandes o suficiente para destruir a porcelana fina, mas que estão lá. Sobrevivendo a uma temperatura às vezes perfeita, às vezes muito quente, às vezes fria demais. Uma casa comum.”

Não quero construir uma casa muito engraçada, mas que não tinha teto, não tinha nada. Quero uma casa de verdade, onde lágrimas às vezes passam, às vezes irrigam o riso, às vezes dançam ao som dos gritos. Meu marido saiu. Isso torna as coisas mais fáceis ou mais difíceis? Só sei que agora quero construir a minha casa e a dos meus filhos. Uma casa com sons de verdade, sem pretensão à pretensão da sinfonia perfeita… Uma casa de verdade. A nossa casa.

 

* Imagem: Lizzy Stewart.

Liliane Prata
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