Textos

20 de fevereiro de 2014

Dez anos depois

Fazia quase dez anos que não se viam. Encontraram-se por acaso, numa livraria, ele agora de barba, ela agora com o cabelo mais curto. Em vez de comentarem sobre suas vidas, seus empregos, sobre a barba e o cabelo mais curto, decidiram que aquele não seria um reencontro banal, não podia ser um reencontro banal. Despretensiosos e ao mesmo tempo sérios, como se tudo entre os dois ainda fosse possível, fizeram o acordo. Então sorriram, deram as mãos e foram para a rua. Não a rua por onde tinham entrado na livraria, mas a rua de dez anos antes. Pois o combinado era este: naquele dia, viveriam como se nunca tivessem rompido.

Almoçaram no lugar em que costumavam almoçar dez anos antes — um lugarzinho simples, bem menos interessante dos que os lugares que frequentavam atualmente, mas delicioso. Conversaram sobre os assuntos de sempre, riram as risadas de sempre. Ela agora não era mais uma publicitária, era de novo uma estudante indecisa de Direito. Ele ainda não era um advogado ocupado e exausto, mas alguém que ria dos advogados ocupados e exaustos. Falaram sobre velhos e esquecidos amigos como se tivessem acabado de vê-los, deixaram que os olhos voltassem ao tom vivo de dez anos antes, especularam sobre dali a dez anos como se não soubessem como dali a dez anos seria. Comeram sentindo o gosto da comida, não se incomodaram com o quente que veio morno, preencheram-se com os sentidos em vez de fazerem planos, riram como se tudo fosse muito simples, muito agradável.

Saíram do restaurante, passaram na banca de jornal de sempre, pegaram um ônibus — há quanto tempo não andavam de ônibus? –, desceram na casa dela. Ela agora morava sozinha, mas trancaram a porta do quarto como sempre, colocaram o colchão no chão como sempre, ligaram a TV como sempre: naquele dia, os pais dela estavam na sala, como há dez anos. Experimentaram o corpo do outro com a intimidade antiga, sem pressa e também sem cerimônias. Tocavam-se com a naturalidade de quem havia feito isso no fim de semana anterior, e no anterior, e no anterior: com saudade molenga e doce de dias, não saudade afobada de anos. Não havia o que estranhar ou do que ter medo: o futuro ainda era sonho, ainda não ia além das risadas e da cor viva dos olhos no restaurante de sempre.

Ainda passaram algum tempo nus, deitados, fumando e conversando, como se cigarro não fizesse mal e como se conversas não precisassem acabar. Então voltaram juntos para a livraria, onde cada um pegou seu carro. Ela tinha um jantar com uma amiga, ele tinha de pegar os filhos na escola.

Agora, era cada um no seu carro, parado no farol com o celular na mão, retornando as chamadas perdidas, sem tempo para os dias que se foram: à frente deles, carros tensos, pedestres rápidos e o farol urgente, prestes a abrir a qualquer momento.

 

* Imagem: ilustração de Ashley Goldberg.

Liliane Prata
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