Textos

12 de janeiro de 2016

Ilustração:
Alessandra Lemos

Esperando

Sento no banco, olho para um lado, olho para o outro, suspiro. Olho as horas, tentando entendê-las, mas agora isso não me é possível: no estado de espírito em que me encontro, aqui neste banco, aqui nesta vida, não sou capaz de entender nada. Nem o que espero para os próximos instantes, nem o que significam esses ponteiros que, sem a menor sutileza, tentam, sobre o meu pulso, demarcar esses instantes.

Não sigo nenhuma religião e, embora engane os outros às vezes, evito a autoenganação; portanto, ainda não consegui respostas satisfatórias nem para as questões mais básicas da existência — quem sou eu, para onde vou, de onde vim. Apesar disso, gosto de fingir para mim mesma que defino sem dificuldade o tempo. Faço de conta que o tempo não faz parte das grandes questões irrespondíveis. Aceito com certeza matemática o passar da vida. A teia invisível por onde passa o quem somos, o para onde vamos, o para onde viemos. Como se fosse simples.

Olho mais uma vez para os lados. Olho mais uma vez os ponteiros no meu pulso. Dizem tranquilamente que o tempo passa, para, voa. Mas quem passa, para ou voa somos nós. E de tranquilo isso não tem nada.

Tentamos definir o amor em poemas e músicas. Já para falar do tempo, não nos damos ao trabalho de pensar em rimas. Pretensiosamente, prendemos, ou achamos que prendemos, o tempo no relógio: tempo é a hora, ora essa. As badaladas dos sinos, a flor que nasce e morre, a pele jovem que envelhece. O tempo é mensurável. É uma linha reta. É para frente, sempre. É?

Então por que seguimos caminhos tortos e avançamos trombando em retrocessos? Por que há lembranças antigas tão vívidas que parecem se referir ao hoje? Então por que nos preocupamos com o futuro que não existe, sentimos ao nosso lado a dor do que já morreu, sofremos pelo que não está mais aqui ao nosso lado? Que linearidade é essa se definhamos com a saudade, com o que não aconteceu, com o que não veio, com o que veio e foi? Se o tempo existe, se o tempo avança para frente, por que sentimos, o tempo todo, a presença do ausente?

Por que, acima de tudo, por que duas horas são sempre cento e vinte minutos neste relógio inútil, mas dificilmente se passam com a mesma duração dentro de mim? Que raio de relógio é esse que me manda ir para uma reunião, mas que não diz nada sobre a minha percepção?

“Ora, o tempo passa rápido quando nos divertimos, lento quando esperamos” — alguém, desses alguéns mais pragmáticos, pode dizer. É?

Ou o relógio é esse materialista sem alma que só demarca consultas médicas, partidas e chegadas, enquanto o tempo, a entidade “tempo”, não vai para frente nem para trás, não leva nada embora de fato e sempre me desaponta sem jamais ter me devido nada? Eu me pergunto por que o…

— Oi — ele diz, aparecendo de repente. — Assustei você?

— Não, não. De jeito nenhum. Eu estava aqui pensando… — digo.

— No quê?

— Em nada. Em tudo. Sei lá. Pensei que você não viesse mais.

— Desculpa, me atrasei. Mas vim.

Pego a mão dele e nada importa mais. Sofri à toa. Endoidei por nada. Isto aqui é real: ele está aqui na minha frente, eu estou aqui em frente a ele, tudo está em seu lugar. E o tempo? O tempo é o tempo. Sei lá eu o que é o tempo! Sou só uma pessoa, uma pessoa só, uma pessoa comum, que se equilibra com dificuldade em cordas que não têm nada de retas, mas que não pode perder a hora. Eu sou eu, ele é ele, estamos juntos agora, até não sei que dia, que ano, e, por ora, isso é tudo.

 

* Este texto foi originalmente publicado em nosso fanzine Tempo; Achados e Perdidos.

Liliane Prata
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