Textos

17 de março de 2014

Eu sabia!

– Ah, eu sabia!

A frase veio da minha boca, depois que meu irmão me contou sobre o divórcio de um conhecido nosso. O casal não comentava com a gente sobre os problemas, mas, ao que tudo indicava, as coisas não estavam indo bem. Então esse amigo disse que tinha algo para contar para o meu irmão. Meu irmão me disse: “O que será que ele quer me contar?”. Eu disse: “O que será que ele quer te contar?”. Então ele finalmente contou e eu lancei mão do antipático e irresistível “eu sabia”.

– Sabia nada! — meu irmão disse.

Eu teimei que sabia, sim, por causa disso e daquilo, mas é claro que ele estava certo: eu não sabia, ele não sabia, a gente nunca sabe.

Não importa se estamos falando de divórcios ou concursos públicos, términos ou começos, acordos fechados ou desfeitos. Quando nos debruçamos sobre o passado, nosso, dos outros e das empresas, é muito fácil saber de tudo: olhando em retrospecto, os problemas e erros são facilmente detectados, uma causa é encontrada para cada fato e o emaranhado da vida ganha lógica e coerência.

– Estava na cara que eles iam fechar — eu disse, em outra ocasião, também para o meu irmão, sobre uma empresa que tinha declarado falência.
– Nem tanto, né? Nem tanto — ele respondeu.

Nem tanto, ele estava certo, nem tanto. Mesmo que a empresa tivesse feito várias merdas, quantas histórias nós vemos de gente que fez merda e nada aconteceu?

A gente está cansado de ver pessoas que fizeram uma loucura no trabalho e não foram demitidas, pessoas que fizeram tudo certo e se deram mal, pessoas que estavam perdidas e deram sorte, pessoas preguiçosas que nos surpreenderam, pessoas incansáveis que se cansaram, pessoas que mal saíam de casa, nem olhavam para o lado, recusavam convites e, de repente, acharam o amor da vida delas.

Não adianta. A gente detesta, mas desfechos são imprevisíveis. No presente, a gente só consegue ver as coisas como elas estão e os resultados só podem ser especulados. Quando a gente vê o resultado, paga de adivinhão. Com o resultado nas mãos, é fácil! Nem nos lembramos que a mesma história pode acabar bem ou mal. E aí comentamos “claro que ele ia se dar mal, olha isso e isso que ele fez, quanta bobagem. Eu sabia” ou então: “você viu, mesmo ele tendo feito isso e isso, se deu bem, porque ele sempre foi muito determinado. Eu sabia”.

Dependendo do que a gente faça, há resultados mais ou menos prováveis. Alguns são quase certos. Outros, quase impossíveis de saber — e, bem, talvez os divórcios se incluam mais nesse grupo. Nos dois casos, há o quase. Porque, afinal, indícios não são certezas. Mesmo assim, quando a gente finalmente sabe o que aconteceu, não resiste e diz: “Eu sabia!”

Sabia nada.

 

* Imagem: Joe Webb.

Liliane Prata
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