Textos

11 de maio de 2015

Mil noites com o mesmo homem

Em algum momento do meu jantar comemorativo de sete anos de casamento, parei de pensar no quanto eu o amava/no quanto eu era privilegiada por ter uma vida a dois harmônica/no quanto aquele camarão com cuscuz marroquino estava bom e fiquei pensando: meu Deus do céu, eu já transei com esse homem umas 900 vezes. Talvez a gente já tenha chegado ao número mil e eu não estou nem sabendo. Se não tivermos chegado, estamos prestes a chegar. Mil noites (ou tardes, ou manhãs ensolaradas) de sexo com o cara que está inocentemente limpando a boca com o guardanapo aqui na minha frente. Mil vezes.

Ali no restaurante, não achei aquela realidade boa ou ruim. Achei apenas assustadora. Estranha. Um pouco excêntrica, talvez? Era algo muito sólido para meu coração que, eu jurava, pertencia a uma modernidade mais líquida. É verdade que sempre gostei de relações longas. Fico encantada com a intimidade da vida a dois: ver quem eu amo com cara de sono, exibir sem receio meu cabelo atrapalhado, dividir silêncios longos sem constrangimento. Gosto de quando some, tanto em mim quanto no outro, a vontade de impressionar, a preocupação em parecer inteligente, a necessidade de ter respostas boas, casos engraçados, argumentos contundentes. Nem sempre estou bonita, nem sempre estou interessante, vira e mexe não sou inteligente, madura, bem informada ou mesmo bondosa. E gosto de dividir tudo isso com alguém e de ver tudo isso em alguém — um pouco por sentir que o amor, para ser profundo, requer isso, esse escancarar das nossas partes menos dignas de nota, e um pouco simplesmente por sentir prazer com a sensação de ver de perto a pessoa de quem gosto, conhecer quem ela é da porta pra dentro, despida de quem tenta ser lá fora no resto do dia.

Ok, mas mil vezes? Mil vezes era demais para a minha cabeça.

Mil vezes os mesmos corpos, mil vezes a mesma pele, a mesma boca, mil vezes o mesmo, digamos, leque de carícias, de palavras, de expressões faciais, sons. Mil vezes. Mil vezes! Mil vezes?

Quando a sobremesa chega, um trio de brigadeiros, estou me lembrando de que nem eu nem ele somos aqueles dois de sete anos atrás. Isso, de certa forma, me consola. Não estamos casados com a mesma pessoa do mês passado, assim como não temos a mesma mãe da nossa infância e nossos filhos não são mais aqueles do último aniversário. Todos, inclusive nós mesmos, mudam a uma velocidade tão desconcertante que nos pegamos reclamando de novos hábitos alheios e lamentando a ida de velhos hábitos. Acordamos num dia comum e damos de cara com um estranho à nossa frente. Nascemos há mais de trinta anos e, ainda assim, nos questionamos por que agora gostamos de algo que nunca nos agradou ou deixamos de gostar do que sempre foi importante para nós.

Relações terminam porque não gostamos da mudança do outro ou não gostaram das mudanças em nós. “Parei de gostar de você”, “Nosso amor acabou” — num mundo em contínuo e ininterrupto fluxo, até que ponto essas afirmações fazem sentido? Se digo que parei de gostar de alguém, parece que eu sou um ponto fixo, esse alguém é um ponto fixo e ambos continuamos iguais e o amor passou. Mas o amor não passa, quem passa é a gente. Não se para de gostar de ninguém: é que o outro mudou e nós também. Nosso olhar mudou, nosso gosto mudou, o que era fundamental perdeu importância, o que era irrelevante ficou enorme. Mergulhamos em novas buscas, nutrimos novos sonhos, passamos a andar de bicicleta, largamos as aulas de tênis, não vemos sempre as amigas que eram tão próximas, frequentamos turmas que não nos imaginávamos frequentando e, pasmem, nós, que sempre botamos açúcar em tudo, agora achamos aquele chocolate doce demais. Nesse processo, o que chega ao fim é o que fazemos e o jeito como vemos, o que termina e recomeça são não apenas nossas ações como nossas percepções, o nosso interior, o nosso e o daquele que se senta à nossa frente no aniversário de casamento: e duas versões atualizadas nem sempre são compatíveis.

É impossível ir mil vezes para a cama com alguém. Assim como, às vezes, fazer sexo com uma pessoa diferente não nos desperta nada de novo. E assim como, dependendo do dia, transar com a pessoa de sempre parece algo completamente inédito, inusitado, surpreendente — para melhor ou para pior.

— Você já se deu conta de que a gente já transou quase mil vezes? — pergunto para o meu marido, de repente.

A resposta dele se dividiu em duas partes. Parte 1: “E daí?”. Parte 2: “Vamos pedir a conta?”.

Voltamos no carro calados. Eu, pensando nas mil vezes. Ele COM CERTEZA pensando em outra coisa.

Não somos os mesmos. Nem eu, nem ele. Não sei se nossas versões futuras vão continuar se agradando mutuamente. Certamente, às vezes vamos nos assustar com nossas novas configurações pessoais, às vezes vamos nos estranhar, nos surpreender positiva ou negativamente, nos achar normais e malucos, incríveis, geniais e patéticos. Dependendo do que prevalecer, dependendo das sensações que persistirem, que resistirem por um tempo significativo à correnteza das transformações… Seguiremos juntos ou encerraremos nossa jornada em comum.

Mas calma lá, penso, agora entrando em casa, tirando os sapatos e planejando o decorrer da noite comemorativa. Sim, mudamos o tempo todo. Sim, nem eu estou indo para a cama com a mesma pessoa, nem ele. Mas, caramba, mil vezes… Não custa nada botar aquela lingerie especial que eu não uso nunca, lançar mão da criatividade e tentar uma ou outra coisinha inédita, né?

 

* Imagem: In Bed, The Kiss, de Henri Toulouse-Lautrec.

Liliane Prata
Leia mais textos de Liliane aqui.