Textos

03 de abril de 2013

A mesa ao lado

Da minha mesa de almoço, vejo um casal. Ela deve ter uns 45 anos, no máximo. Fala rápido, voz de quem ainda é jovem. Ele, uns 75. A voz rouca pergunta “hã?” com freqüência, como fazem os mais velhos. Ela chama ele de amor. Não uma, mas várias vezes. Ele diz que não enxerga o que está escrito no rótulo da cerveja. Ela entorna a voz e diz “você já não enxerga mais nada mesmo”.

Eles falam das reformas na casa, de pão com manteiga, da modinha de dar o nome de Sofia para as meninas de hoje.

Os dois usam alianças. Por dois segundos, uma mão toca a outra. Ela oferece a comida para ele provar e leva a colher até sua boca.

Com o filé já frio, eu não sei se acredito que ela o conheceu com 20 e se apaixonou efusivamente. Ou se está mais para essas pessoas que se dão bem às custas da fraqueza dos corações enrugados.

Quem sabe, os dois juntos. Apenas comendo batatas e dividindo a cerveja na mesa ao meu lado.

 

* Ilustração de Henrique Jorge.

Lorena Goretti
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