Textos

05 de dezembro de 2012

Da varanda

Já te explico porque fiquei ali te olhando por tanto tempo.

Você tem algo tão intrigante no olhar que é impossível não travar uma conversa imaginária entre você e eu enquanto o eu te olha e o você sapeia os cento e noventa e sete canais da TV a cabo.

E sabe o que eu vejo? Tristeza.

Esse olhar pesado de quem está o tempo todo querendo provar para si e para os outros que conseguiu o que queria da vida – isso, pra mim, é tristeza.

Mas você sabe que não conseguiu, né?

Não, claro, você conquistou muitas coisas. Seu apartamento é realmente lindo. Adoro aquela varanda. Acho que todo mundo merece uma varanda para pensar na vida. Embora pra você, ela seja só um pódio onde você acende o cigarro e grita em silêncio que conquistou tudo o que queria, inclusive a adega que os caras da empresa recomendaram. Eu, na tua varanda, penso no que te falta.

Você lembra que acreditava em Deus? A gente era pequeno e eu lembro de você indo pra igreja todo sábado à noite, puxando a oração rápida no jantar e a demorada nas viagens de carro pra praia. Eu sei, eu sei. Mas batizar as meninas não significa que você acredite que Deus. E antes você costumava acreditar. Aliás, foi o que você que me falou quando o André me largou, lembra? A gente é prova de que Deus faz bem as coisas. Você, eu e aquela ex-mulher dele, que quase morreu quando ele chegou bêbado em casa.

Mas sabe, você está cercado de gente que acha que isso não é importante. E aí se sente orgulhoso de acreditar só em si mesmo, mas não percebe que passa a vida cansado, tentando ser feliz. Troca de mulher, de carro, de casa, de emprego… você se dá conta de que não é tão deus quanto acha que é. E aí, quando as coisas dão errado, sabe que nada aconteceu por acaso.

É, tem gente que chama de destino. Eu chamo de fé. Me faz mais feliz pensar nas coisas desse jeito. E te fazia também, lembra?

Eu queria que você apertasse o mute do controle remoto e falasse sobre quem você já foi. Queria que as meninas soubessem que o pai delas contagiava a gente de tão feliz que era. Você não tinha a TV de cinquenta polegadas com cento e noventa e sete canais, mas tinha amigos. Sim, eu sei que a casa vive cheia. Só que esses amigos não são iguais aos de antigamente. Os de agora nem existiriam se você não morasse nesse duplex, com esse carro, essas roupas…

Eu sei que você sabe disso. E sabe também que quando eu te olho aqui da varanda e não digo nada é porque tenho muito a dizer. Mas eu espero. Quando você quiser conversar, eu falo. E quando você se cansar desse vazio noturno sem sentido, eu vou sorrir contigo. De novo. Como há muito tempo a gente não faz. Enquanto isso não acontece, desliga a TV. Anda. Vou chamar as meninas pra jantarmos juntos dessa vez. Quem sabe hoje você não puxa a oração.

 

* Ilustração de Henrique Jorge.

Lorena Goretti
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