Textos

28 de agosto de 2012

Merda d’artista

Em 1961, um carinha italiano chamado Piero Manzoni resolveu criar uma conexão sarcástica entre produção artística e produção humana. Se lhe parecia que qualquer coisa poderia ser chamada de arte, por que não dizer o mesmo do seu cocô?

Diz a lenda que a obra foi direto do banheiro para uma galeria, enlatada como sardinha nesses potinhos que aparecem na foto, com rótulos em, veja bem: inglês, francês e italiano. Merda pouca?

Para completar a brincadeira, o artista determinou que a lata só teria valor enquanto estivesse fechada. Tudo isso em meio a boatos de que o seu conteúdo não passava de um pedaço de gesso. Ou seja, você, um colecionador rico e excêntrico, jamais saberia se o que comprou foi uma peça de arte singular ou apenas uma lata velha.

E se você acha isso grandesbosta, vai gostar de saber que, hoje, a obra tem valor estimado em mais de 100 mil euros.

Eu tive a chance de ver de perto a suposta merdinha. Fui a uma exposição chamada “El arte del comer”, na Espanha, e esta foi apenas uma das muitas curiosidades que encontrei. Conheci Ferran Adrià, um chef venerado da Catalunia, que cria obras de arte no lugar de pratos. Vi peças de Picasso com natureza morta. Vi uma poltrona feita de carne seca e vi até uma carta de amor, em árabe, escrita com cascas de batata.

Mas saí de lá, mesmo, tentando entender qual era a do Manzoni.

Talvez, ele quisesse mostrar que não interessava mais a matéria prima ou a fonte de inspiração, no que pode ser uma crítica visceral à banalização da arte. O importante deveria ser apenas ter um resultado que fosse curioso e inusitado o suficiente para se tornar notável por si.

Ainda que, para algumas pessoas, a ideia continue não passando de um potinho de merda.

Lorena Goretti
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