Textos

12 de novembro de 2013

No metrô

Foi lá embaixo, onde os carros nunca entram e o dia passa correndo, que os dois se conheceram.

Ela começou a trabalhar atrasada e arrastada naquele dia. Tinha mais tempo de casa, portanto, era menos pontual. É difícil estar motivada quando nada de diferente acontece no seu dia a dia. E na Linha Azul, como muitos sabem, nada acontece.

Ele, ainda no período de experiência, tinha um ritmo mais acelerado. Começou na Linha Verde fazendo o que podia durante o serviço. Era jovem, forte e, como a maioria dos paulistanos, estava ali para ganhar dinheiro e ser alguém na vida.

Os dois tinham essa ilusão prazerosa de um dia encontrar alguém que valesse a pena, já que o trabalho, velho ou novo, nunca valia mais do que a sobrevivência até o fim do mês.

Certo dia chuvoso, os trens passaram lentamente pelas estações do metrô devido a problemas de energia na Linha Vermelha. O tempo de parada era maior em cada estação e foi na Ana Rosa que eles se viram pela primeira vez.

Ele, bonito e bem arrumado, levava um crachá de funcionário novo: 12º novo trem do metrô. Ela, impressionada, deu um sorriso e foi retribuída. Iam começar a trocar algumas palavras, mas foram interrompidos pelas reclamações dos passageiros diante do atraso. Isso de as pessoas serem eficientes nessa cidade não ajuda. Não dá para ser diligente e buscar o amor da sua vida. Nunca dá tempo.

Ele tentou segurar as portas para o momento durar mais um pouco, mas já era tarde. E aquele dia seria ainda mais longo por não terem a certeza de quando se encontrariam outra vez.

Naquele setembro, os dias viraram uma eternidade. À meia-noite, iam todos para o pátio de sua estação. Não se misturavam, logo, ele nunca mais a viu. E todo dia, às 04h, acordavam na esperança de se verem novamente.

Ela tentava demorar mais na Ana Rosa e no Paraíso na esperança de reencontrá-lo e, sempre que tinha uma brecha, acionava o sistema de som:

– Paramos para aguardar a movimentação do trem à frente.

Era o jeito que tinha de fazer o destino atuar a seu favor. Mas era bobagem. O destino acontece quando quer. E foi em uma sexta-feira de feriado que ele deu as caras.

Com o fluxo intenso, ela teria o dia de folga. Mas, sem razão para ficar o dia sem fazer nada, foi fazer um freela na Linha Verde. Os dois estavam mais próximos dessa vez. Ela indo para a Vila Madalena, ele para a Prudente. Ele a enxergou de longe. Era mais velha, mas tinha um charme singular que era de derrubar qualquer lataria. Ela também o avistou e sorriu. Não tiveram dúvida. Se sentiam tão incompletos em suas rotinas que sabiam que só se completariam estando juntos. E teria que ser naquela hora, antes que seus caminhos mudassem outra vez.

E assim foram um ao encontro do outro, apesar de todo o esforço contrário dos seus condutores. Chocaram-se, por fim, de olhos fechados, para conseguir o beijo que desejaram a vida toda. Os vagões se apertaram como se aperta um corpo contra o outro em um abraço de saudade. A carga de solidão que antes cada um trazia se tornava leve. A paixão se transformou em fogo, em fumaça e em um cheiro que eles nunca haviam sentido antes. Nada daquilo eles haviam sentido antes. O barulho ensurdecedor das pessoas e do ferro nos trilhos era agora silêncio. Para eles, só restavam eles. Esse ato inconsequente de entregar-se a um amor mesmo sem garantias valia a pena. E foi assim, rápida e efusivamente, que eles se encontraram pela última vez, para sempre.

Ao contrário de mim, que cruzei com você três vezes nesta semana, retribuí o sorriso, imaginei a sua mão na minha, o seu jeito de falar, os elogios, suas rugas, a sua rotina, seu ponto de vista e, por medo, não consegui sair dos trilhos.

 

 

* Ilustração: Henrique Jorge.

Lorena Goretti
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