Textos

04 de setembro de 2014

Rejuvelhescer

– Você não está ficando mais nova.

Já ouvi isso cinco vezes esta semana. Três da minha filha. Duas diante do espelho.

Minhas costas doem todos os dias e quase sempre no mesmo lugar: naquela região entre o “carregar crianças no colo” e o “fazer amor no banco de trás do Opala”. Ao lado da vértebra “deixa que eu te ajudo a levar essa caixa”.

A velhice chega devagar e não é exatamente um drama me perceber velha. Dói mais lembrar de tudo o que não doía quando eu era jovem.

Hoje já não pulo em shows, porque nem sequer há espaço neles para mim. Não danço durante o banho, porque me falta um tanto de coordenação motora. Tampouco procuro brinquedos embaixo da cama, já que não há mais nenhum por aqui. Antes devorava livros. Hoje, graças à vista, horas me devoram até que eu consiga terminar uma página.

Não, não pense que estou reclamando. Apesar do tom triste das lembranças, eu não tenho tanto pesar assim nelas. Nelson Rodrigues dizia que viver demais é falta de higiene. Mas eu não sei, não. Pra quem viveu tudo o que vivi, acho até que estou bem. Meu tempo de vida é diretamente proporcional às histórias gostosas que conto no almoço de domingo. E isso não é falta nenhuma.

Olhando daqui, me entristeço muito mais com quem acha que vai viver anos e por isso fica marcando e adiando compromissos, encontros, amores, filhos e até problemas.

Marcando e adiando as boas histórias do domingo de quem fica.

 

* Imagem: Henrique Jorge para a Confeitaria.

Lorena Goretti
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