Textos

30 de setembro de 2013

Tananan nanan

Quando criança, era Pe. Zezinho. Meus pais saíam e a minha tia colocava no toca-fita as músicas que ela tanto gostava sobre o céu, anjos da guarda e os milagres que acontecem quando a gente reza e reza sem desanimar.

Outras vezes, ouvia as canções infantis de uma fita dos meus irmãos e eu sempre ficava mal com o jacaré, que não entendia por que vivia na água e não era peixe. Um dia a fita enrolou e nunca mais tivemos notícias dele.

Quando cresci mais um pouco, descobri os CDs da Revista Caras da minha mãe. Foi por ela que conheci Bach, Mozart e Beethoven, que eu pensava que era o cachorro daquele filme e achava o máximo que um São Bernardo babão estivesse tocando aquilo tudo.

Todas as músicas que bem ou mal me marcaram foram indicadas ou ouvidas por alguém antes de mim. E as piores delas foram as dos meus relacionamentos.

Mais ou menos 4 ou 5 deles tiveram um fim marcante, com uma trilha marcante, que hoje eu não posso escutar sem um embrulho no estômago. Algumas músicas não me deixam mal pela lembrança de outra pessoa ou pelo jeito errado como tudo terminou: essas músicas me reviram por dentro porque me lembram de como eu era naquela época.

A memória musical é tipo a memória olfativa, aquela safada. Quando a gente menos espera, ela chega e traz os sentimentos mais soterrados à tona.

Mas enfim, como eu ia dizendo, a música.

Para me desintoxicar de um namoro, criei o hábito de procurar bandas que só eu conhecesse. Sem indicações. Sem link no Gtalk. Era o meu jeito de me desligar do ex, da mesma forma que a gente faz quando coloca o fone de ouvido no trabalho para se desligar das pessoas ao redor – mesmo que, na maioria das vezes, esqueça de dar o play.

E mesmo que quase todas as bandas que eu descobrisse tivessem lá uns acordes bem parecidos com os que um ou outro ex costumava ouvir, a descoberta era minha. E eu me sentia como aquelas mulheres que vão para balada com o decote mais decotado de todos os decotes possíveis só para mostrar que, agora sim, está tudo bem.

O novo tananan nanan era o meu decote. A minha música. E o mérito era todo meu.

Então, se um dia, uma dessas músicas tocar na TV enquanto você — o atual — e eu estivermos deitados no sofá, espero que não se atreva a cantar.

Lorena Goretti
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