Textos

24 de agosto de 2013

Você mesmo

Pra começar a trabalhar, você não cobra nada. Você promete vestir ou tirar a camisa. Dar o sangue. Não importa para o que.

Pra engrenar, você leva a sua inspiração. As convicções. O seu computador. E esquece tudo lá.

Pra se enturmar, você paga pau. Paga o próprio metrô. O almoço. A saúde.

Pra continuar a trabalhar, você não vê a hora passar. Nem os filmes que queria ou a namorada.

Pra agradar, você se mistura. Esquece quem é e tenta parecer mais o que querem que você seja.

Pra subir um andar, você promete, faz discursos bonitos e abre mão dos direitos – dos outros.

Pra não admitir o erro, você mente. Pra si mesmo.

Pra fingir não se frustrar, quando já é tarde da noite, você se cala e se conforma.

E mesmo sabendo onde está a saída, você apenas vai ficando.

 

 

* Imagem: weheartit — Nathalia Freire.

Lorena Goretti
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