Textos

09 de setembro de 2012

A vida pautada em joules

Não adianta tentar convencer os outros a não te enganarem, se eles continuam enganando a si mesmos.

Tenho uma hipótese existencial de que a vida deve ser pautada em joules*.

* Um joule é a unidade de medida de energia e de trabalho – saiba mais aqui.

Que os humanos gastam uma quantia incomensurável de tempo em atividades totalmente dispensáveis não é novidade. Novidade, talvez, seja perceber que, mesmo aqueles que gastam tempo com objetivos aparentemente nobres, ainda assim podem ter um investimento desnecessário de energia. Uma vez que, embora a intenção seja boa, o que se deseja alcançar é impossível.

Conhecimento é processo. E processo é feito de partes linearmente dependentes – embora as partes do processo possam ser tantas que se torna impossível listá-las e encadeá-las. Mas processo implica, necessariamente, a variável tempo.

Eu sempre uso um exemplo idiota com a minha filha: Por que você “anda” hoje?

Claro que ela não teria como responder de maneira exata.

Você anda hoje, com 12 anos, porque quando você tinha 1, você engatinhou e seus músculos ficaram fortes para que você conseguisse equilibrar o seu próprio corpo um dia, e então conseguir andar. Mas, antes de você engatinhar, quando você era só um neném, eu te dava comida. Para que a proteína fizesse seus músculos crescerem e se desenvolverem. Porque sem músculos fortes nas pernas, você nem conseguiria ficar de joelhos para engatinhar.

Eu disse isso, pela primeira vez, quando ela reclamava de ter que fazer alguma lição de casa de matemática.

Quando você era neném, você simplesmente comia. E quando era criança, simplesmente engatinhava. Graças a isso, hoje você simplesmente anda e nem sabe como tudo isso aconteceu. Depois que a gente fica grande, a gente fica meio idiota, achando que tudo precisa ter um resultado imediato. Mas a matemática ajuda você a lembrar do processo. De que você tem que fazer várias coisas, por várias vezes, até que caia alguma ficha que traga um sentido maior.

Existem infinitos processos acontecendo que nos envolvem dos quais não temos a mínima ideia. Mas eles existem e contribuem para a sua evolução de forma inconsciente e intuitiva.

E, por isso, volto a ideia de que a vida deveria ser pautada em joules. Você pode querer ensinar alguém a andar logo de cara. Isso poderia ser um ideia nobre. Mas, se a pessoa não tiver músculos e equilíbrio, toda a sua energia será gasta em vão.

Ninguém precisa conhecer cada parte do processo. Ninguém nem precisa saber que existe um processo. Mas não se pode evitá-los. Não se pode pular as etapas necessárias para que ele se complete.

Por isso é que eu digo que, muitas vezes, é inútil mostrar para os humanos que eles não devem enganar os outros. É inútil se esse mesmo humano sequer aprendeu a não enganar a si mesmo.

Como nos ensina o grande aforismo grego, inscrito nos pórticos do Oráculo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”.

Eu duvido que tenha algo mais importante que isso no mundo. Todo o resto (de bom) que qualquer indivíduo puder conseguir nesta vida parece ser uma consequência desse processo de auto conhecimento.

Só não se engana quem se conhece profundamente.

Por isso, já não gasto mais tantos joules com muitas coisas e pessoas. Porque, desculpa, conhecer-se a si mesmo não é nem pra qualquer um, nem para qualquer caso.

Precisa de vontade, de esforço e de tempo.

Precisa de processo.

 

* A imagem que ilustra esse texto é de um vitral em um prédio público em Ludwigshafen, na Alemanha, e traz a versão contraída do aforismo grego “γνῶθι σεαυτόν” (“Conhece-te a ti mesmo”).

Luciana Keiko
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