Textos

22 de junho de 2015

Ilustração:
Juliana Vomero

Viver é melhor que sonhar

Eu estou flutuando no meu mundo imaginário, no espaço onde as ideias se misturam e as fantasias mais absurdas são absolutamente naturais. O céu é magenta. A grama fofa sob meus pés, gelada e macia. A brisa é leve e refrescante e tem o aroma comovente de chuva fresca e chocolate.

Eu respiro fundo e o aroma se concentra, como se a brisa tivesse virado uma fina corrente de ar. A grama começa a pinicar, e logo não a sinto só nos pés, mas subindo por todo o corpo. Percebo que estou incomodada, como se uma mariposa voasse freneticamente perto demais do meu rosto.

Eu fecho os olhos com força, apertando as pálpebras, como se esse gesto violento fosse espantar o inseto, e quando os abro, um sorriso cansado brilha através da visão embaçada.

É ele, que mais uma vez veio me lembrar de que viver é melhor que sonhar.

Ele passa os dedos no meu rosto, beija meus olhos e me entrega uma xícara quente que emana aquele mesmo aroma intenso e doce.

“Bom dia, meu amor.”

O céu magenta e a mariposa evaporam com a fumaça do café — uma vaga memória — e com cada gole e beijo molhado, aquele sonho é substituído pelas possibilidades de um novo dia. Eu descanso a cabeça em seu peito, o meu lugar favorito, e sorrio.

Esse é o nosso ritual, íntimo e essencial, que nos conecta mais a cada dia. Aproveitamos esses momentos juntos antes de enfrentar o caos e o estresse, e esses poucos minutos definem o nosso estado de espírito durante o resto do dia. O sentimento de união que reforçamos logo cedo nos mantém juntos, mesmo que longe, até o reencontro delicioso da noite. É uma rotina só nossa, que nutre corpo e coração.

Café fresquinho e amor, o melhor despertador.

 

* Imagem: ilustração de Juliana Vomero para a Confeitaria

Luciana Levy
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