Textos

08 de abril de 2013

Era só o começo

Antes de ser mãe, ela era ela mesma e, antes ainda de ser ela mesma, era a filha da dona Maria. É neste ponto que começa a história que vale a pena ser contada.

Onze anos e um caderno de recordações. Um dia, o caderno voltou com um poema. Era de um amigo e, mesmo não sabendo o que era “crepuscular”, ela se encantou ao ler. Depois, o amigo foi transferido de escola e ela nunca se esqueceu dele e do poema.

Até o dia em que o amor de verdade passou por ela. Era um sábado.

Quem poderia imaginar que iria acontecer assim.

Ele: passando fardado, apressado para a noite de serviço. Não era para ele estar de serviço naquela noite. Mas, no dia anterior, tinha perdido a hora, entretido com sua nova máquina de escrever.
Ela: doze anos, pulando corda na rua com as amigas. “Salada, saladinha bem temperadinha com sal, pimenta, fogo, foguinho”.
Ela o viu e caiu. Foi nesse dia em que ganhou uma cicatriz no joelho. Mesmo atrasado, ele se aproximou e a ajudou.
– Quem é ele? – perguntou à amiga.
– É o namorado da Mariazinha.
– Hei, volte aqui! De quem você gosta mais, de mim ou da Mariazinha? – disse ela num tom arrogante e seguro, típico das crianças precoces.
Ele, não resistindo à graça e não querendo ser grosseiro, respondeu segurando na trancinha dela:
– É claro que é de você.

E bastou isso para ela planejar todos os dias, anos e décadas seguintes de suas vidas.

Era só o começo.

Chegou em casa e foi logo contando para Dona Maria que iria se casar com um militar, que teria três filhos, seis netos, doze bisnetos e já começara a pensar nos nomes de cada um. Dona Maria só percebeu que a filha falava sério dois anos depois, quando ele foi pedir para namorar sua filha.

Dona Maria passou uma descompostura nos dois:

– Não quero ser avó antes da hora, hein?!
Em seguida, foi a vez dela conhecer a mãe dele. Nesse dia, reencontrou o antigo amigo.
– Você é irmão dele? – perguntou.
– Sim! E, antes que você descubra de outro jeito, foi ele quem escreveu aquele poema no seu caderno.
Ela e o amigo, entre risos, falavam que parecia a história de Cyrano que estudaram na aula de literatura.
– Mas, por favor, quero final feliz. – dizia ela.

Era um namoro de antigamente. Namoro de sofá, cada um em uma ponta e a dona Maria no meio. “Acordei sorrindo sem saber o porquê” foi um dos bilhetes que ele entregou a ela, estendendo o braço por trás da dona Maria. Outro foi um poema de Cora Coralina que ela usava como marca-livro: “Nas palmas de tuas mãos, leio as linhas da minha vida”.

Uma noite, se despedindo, disseram que se amavam. Aconteceu mais ou menos assim:

– Tchau – disse ele, com voz de sono.
– Você disse que me ama?
– É… sim, te amo!
– Você não acha que é muito cedo pra falarmos isso?
– Boa noite. Tchau.
– Também te amo.

Eles se beijaram e, naquela noite, foram dormir mais felizes.

Eles se casaram e ele subiu três andares com ela no colo.

Ele a ensinava farmacologia e ela se tornou uma aplicada enfermeira.

Ela o ensinava a dançar e ele se tornou um exímio bailador.

Ele levava flores roubadas ao hospital quando ela fazia plantão.

Ela cantava na rádio quando ele estava de serviço.

Ele era a pausa de todos os seus problemas.

Ela era a causa de todos os seus poemas.

Ele a encheu de mimos, de histórias, de sonhos.

Ela o encheu de esperança, de juventude, de amor.

Eles se encheram de filhos, se encheram dos filhos, se encheram de si mesmos. Trinta anos, três filhos e três netos depois, não estão mais juntos. “A relação se desgastou”, é o que dizem.

Ela ainda lembra do poema de cor.
Ele ainda chora ao pensar naquela música que não toca mais na rádio.

Hoje, quando estão juntos, parecem o casal perfeito. E, quando dançam dança de salão, é como se nunca tivessem parado de dançar. Mas já haviam escolhido: era só, o fim.

 

 

* Imagem: Jump rope in the front yard, Cleveland, Ohio, 1946.

Luiz Durante
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