Textos

09 de novembro de 2015

Seara dos Reis Magos

Lá em São José do Egito, água é assunto urgente.

Pouco antes de 80, a seca foi profunda e os pingos nas janelas nem bulirem via a gente. De manhã, quando acordava, nem era de descansamento, era de calor e de num guento.

As crianças buliçosas paravam na penúltima dobra, só faziam o chapéu, pra brincar de proteger, nem chegavam a desarrear a liberdade de abrir um barquinho de papel, por desesperança ou desmotivo. Quando não, no arredio, chochas, só brincavam de badoque, mirando xêxos nas vidraças das comadres. Era um vê dentro da mão e um vê de contra em pés; os cambitos de dar dó pareciam uma ampulheta de um tempo só com pó. A zoada só findava quando as comadres ameaçavam chamar o Biu do Olho Verde ou o Perna Cabeluda.

A mantença de toda gente se garantia nas chuvas que num vinham, nem ficavam; se caíam, nem corriam, secavam de nem o chão sombrear, feito borrão sem nota alguma, desses de enfeite de mesa de grã-fino que nem assunta como é quando compra um terno novo pra romper o ano ou festa qualquer.

Era tarde de 80, em janeiro, uma garoa. O compadre Zé Parício logo fez sua prosa à toa. Ele era a tampa de Crush, o próprio cão chupando manga. Disse isto: nem de cor, nem de cheiro, mais parece xixi de bode, essa garoa num alevanta nem pé de alface e não serve nem de esteio, como pode?!

Mas ele tava em desatino e de engano. A garoa foi garrando só grossura e pesadume, trouxe trovão e relampejo, bem em cima da cabeça do gado magro de uma vez. Magro feito antena de cidade, feito artista bonita de dentro da TV. Os gabirus corriam felizes tipo o quê.

Pois 80 foi de longe um dos anos mais contentes. Mesmo com tanto gado morto, foi de susto e de azar, de raio na cacunda, não careceu de sede ou inanição, foi de morte natural, não causada por ganância e covardia de quem briga por coisa que num se leva, nem pro céu, nem pra baixo, no bolso do paletó. Quando a cova surge à frente o que vale é o que se deixa e que não se toca, e o que se leva é o que vale de verdade lá pra lá.

Foi um ano dos melhores, com seara dos reis magos e verdura até São João. De hoje a oito, só de olhar já se via os brotinhos de feijão. Cada enxurrada já trazia os barquinhos de papel qual jaziam os chapéus, nadando feito atobá com bem pressa pelo chão, só parando ao chegar num marzão, num catabi.

Até hoje toda gente clama pelo ano de 80. Eita, e num é motivo besta, foi um ano sem esmolé, em que a miséria se esqueceu de convidar a fome e a esperança pra festança e ninguém carecia de esperar, era Veneza, era só viver sem secar. Era ano de alegria e até de chamegar.

* Imagem: Romance do Sangue e da Água, cordel de Guilherme de Faria

Luiz Durante
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