Textos

16 de maio de 2013

Documento sem título

O que sinto por você não tem nome.

“É isso”, resume minha boca pra cobrir silêncio.

Anos sem palavra, beijo, cantar de amor. Agora, são dois num abraço e a rua coberta de maresia. Que bonita essa cicatriz que corta seu rosto e que bonito é mesmo esse seu rosto vazio. Gosto dos novos óculos, o cabelo nesse corte, legal a camisa de banda, essas Havaianas e a cara de quem demorou nada para escolher as palavras.

E, de todas as ruas, países, brigas, mãos, gritos, furar o sinal vermelho, copos vazios, sua culpa, minha culpa, nossa culpa, essa noite é a minha preferida. Essa e a seguinte. A birra das mensagens enxutas, o xadrez da blusa, o silêncio por entre as ruas que costumavam ser nossas. Você – diferente – eu, diferente. Tão igual e novo. Tão recomeço e eterno, denso e definitivo. E nada e adeus.

“Dá um teco desse cheddar”, você diz e empurra a batata frita para dentro do meu sanduíche.

O que sinto por você é vontade de apertar mais do meu cheddar aí no seu prato.
O que sinto mal tem nome. É dividir mais essas noites de silêncio. Partilhar o gosto, o sal, o errado, o infortúnio, a madrugada vazia, essa angústia no peito e a gargalhada que acaba em lágrimas.

O que sinto, é isso. E você sabe.

 

* Ilustração de Camilla Nuca.

Mariana Reis
Leia mais textos de Mariana aqui.