Textos

08 de novembro de 2013

Não repare a bagunça

Disse que ia passar e passei. Fui entrando. Você veio de cara limpa, roupa macia e uns três quilos a menos. Estiquei o rosto pra beijar sua boca de surpresa, passei pelo elevador, pela porta, fui entrando. Ocupei um canto da cama, único móvel do apartamento novo. Seu corpo nunca esteve tão bonito, eu nunca quis tanto dizer nada. Sobre isso, sobre nós, sobre os pelos do seu peito.

Não queria dizer que vi duas moedas atrás da TV e a Coca-Cola sem gás no chão. Gostei da bagunça, da mala revirada, achei engraçada a pilha de livros. Nunca quis tanto não dizer da vontade de encher sua geladeira de mostarda – que gosto cada um tem o seu e eu gosto de você, cara.

Disse que que ia passar e passei, mas de palavra precisa? Continuei calada nos seus travesseiros novos até o momento que você coube inteiro no meu colo. Foi entrando. Mudos de ausência, o sino da igreja gritou só pra misturar os nossos sonhos. E eu, que disse que ia só passar, fiquei.

Com preguiça, coloco agora meus pés, coxas e peitos pra fora do apartamento novo, direto na manhã azul. Você marcha longamente ao meu lado, sem saber se mãos dadas ou não. O próximo passo é a esquina cheia de sol e crianças que riem demais. Vou solta, em silêncio. E você nem olha pra trás quando cruzo o farol vermelho.

 

Imagem: aqui.

Mariana Reis
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