Textos

29 de julho de 2013

Por favor, não atravesse

não atravesse essa rua. com seu caminhar manso, chegar até aqui são só três passos. um, dois, três pra dentro dos meus olhos e você vai sorrir dentes perfeitos, dizer seu nome e prazer e qual é o seu. por favor, fique aí parado. que é pra ver se meu coração estúpido para com isso de ver era uma vez em você.

(não. você desobedeceu a lógica e atravessou. que pena de todas aquelas ligações que vieram depois dessa rua, nossa mentira, o som do violão, a casa dividida e você gritar da porta “mulher” e eu buscar a chave. que pena da pele macia das suas mãos e da pizza de domingo. e o sofá da sala que mal cabiam suas pernas e aquele rasgo no centro que dividia o nosso abraço).

sei que já passou isso de você e eu, mas é que justo hoje alguém falou da sua nova menina. e disse que ela é de um modelo doce, canta como as personagens do céu e usa todas as suas maiúsculas. você sabe o quanto eu odeio suas maiúsculas, então melhor assim, você na mesma calçada que ela.

por favor, volte um pouco atrás e pare lá do outro lado. nunca mais pense em atravessar essa rua – que é pra acabar isso de meus olhos, sorriso, mentira, chave, rasgo de sofá. promete que não atravessa que eu prometo que fico aqui escondida na loja de conveniência da esquina (aquela que vende o pão de queijo que você tanto gosta).

 

Imagem: williamchausse.

Mariana Reis
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