Textos

31 de julho de 2012

Atrás da porta

O amor anda comedido. Parece uma coisa que todo mundo procura, em algum lugar do
armário, mas tem vergonha de vestir no dia a dia. O amor parece algo que só os seus
avós viveram e que talvez não tenha espaço para os dias de hoje. Os dias mais corridos e
esbaforidos que a humanidade já viveu.

Mas será mesmo que é o dia a dia que não permite o amor?

Nessa tal geração de possibilidades perde-se a perspectiva do erro. Qualquer busca parece
alcançável, uma espécie de “síndrome do Google”. Estamos cercados de acertos e de
vontades substituídas. Não deu pra fazer o plano A? Plano B é melhor. E se plano B não
funcionar, plano C está aí. E vamos pulando de galho em galho sem passar pelo processo
do sofrer. Sentir a dor virou coisa do passado. Aquele mesmo passado dos seus avós.

Quantas vezes você realmente errou nos últimos anos? Quais foram esses erros? Ao menos
foram úteis? Muita gente guarda o erro no armário, ao lado do amor. E essa dupla dinâmica
fica lá, sobrevivendo, nos encarando dia a dia enquanto nos vestimos. Aí fechamos a porta
do armário, saímos de casa e só resta ao amor e ao erro curtir o clima de naftalina. Isso sim
é injustiça.

Da próxima vez que for se vestir, dê uma chance aos que estão atrás da porta. Pegue um
punhadinho do amor e coloque no bolso direito. Depois pegue um punhadinho do erro e
coloque no bolso esquerdo. Você vai ver que, durante o dia, como quem não quer nada,
vai acabar colocando a mão no bolso.

Se a gente já fica feliz quando encontra dinheiro num bolso perdido, imagine encontrar o amor.

Marina Wajnsztejn
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