Textos

24 de outubro de 2012

Exercício de ausência

Diário do Relacionamento, 16 de setembro de 2012, padaria da Sumaré.

Eu pedi uma vitamina com suco de laranja (“Vitasuco”, para os iniciados). Ela, um pão com instruções (integral, manteiga, mas não muito, queijo minas, quente, mas sem tostar demais):

– Não achei minha escova de dentes hoje.

– Eu que tirei.

– Por quê?

– Porque a gente tá dando um tempo.

– (engasgando) Ooi?

– Com a gente dando um tempo, eu não consigo ficar olhando pra aquela escova lá. Tu não está, e a escova fica lá, me encarando.

– Haha. Você é demais.

– Quê?

– Desde quando a gente tá dando um tempo?

– Ué, a gente quase não se fala há quase duas semanas.

– Mas você pediu pra eu passar na sua casa pra dar comida pros gatos, por causa da viagem…

– Pedi… mas tu nem sabe o que está acontecendo na minha vida.

– Sei sim. Eu acompanho sua vida pelo Twitter.

– Pfff… Bom, o fato é que eu acho que a gente tá nesse “exercício de ausência”, e eu não consigo olhar pra sua escova de dentes. Tu não acha importante – e triste – que durante essas semanas eu não tenha sentido a sua falta, e tu não tenha sentido a minha?

– Bom, o que você sente é você quem sabe. E eu senti sua falta, sim.

– Mas tu não me ligou.

– Você também não. Só me mandou email pra cuidar dos gatos… e daí entrou em parafuso por causa desse site que precisa sair…

– Dia 27. Tô ficando louca. É muita pressão, todo mundo me pedindo coisas.

– E você vai fazendo o que te pedem. Conhece aquele ditado?

– ?

– Quanto mais você abaixa, mais mostra a bunda.

– Hehe.

– rrrr (fim da vitasuco nº1)

– Tu não acha que depois daquela briga ridícula, a gente ficar sem se falar, sem se ver durante quase duas semanas, é uma coisa importante?

– (oi amiga, traz mais uma vitasuco pra mim?) Olha, eu não consigo achar que uma briga ridícula possa ser importante. E depois, eu tô respeitando seu momento de loucura. Acho que eu tava te atrapalhando – talvez a gente brigue por coisas ridículas porque você está meio enlouquecida com o mundo em sua volta – comigo, inclusive.

– Não sei. A gente tá em crise.

– Bom, não é nessa semana, né? Faz um tempo…

– É, mas isso tem que acabar. Não consigo cuidar disso agora, mas temos que resolver isso como adultos.

– Como adultos? “Dando um tempo”? A última vez que ouvi a frase “dar um tempo” foi no colegial! Quantos anos você tem, mesmo?

– Hehehe.

– Não me venha com essa de dar um tempo. (Pausa dramática). Vamos terminar agora, então.

– Não! Tu é muito radical!

– Eu me recuso a “dar um tempo”. É muito ridículo!

– Tá bom, então não vamos dar um tempo. Deixa tudo do jeito que está.

– rrrrr (fim da vitasuco nº2)

– …

– …

– Viu que tem filme novo do Wes Anderson?

 

Murilo Martins
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