Textos

15 de outubro de 2012

LoveHurts e Murilo Martins

* Entrevista com Murilo Martins para o Update or Die (por Fabiane Secches). Murilo contou um pouco sobre sua HQ LoveHurts, suas referências, inspirações e a vida de quadrinista no Brasil.

 

LoveHurts tem um título e um tema forte, mas também tem humor. De onde veio o nome e a ideia da HQ?

Veio de um fanzine que a minha namorada fez quando a gente terminou (pela primeira vez). Depois, quando a gente terminou DE NOVO, eu roubei o nome e fiz um fanzine-quadrinho-provocação chamado LoveHurts, vol. 2. Aí não teve jeito, me apeguei ao nome. Vai ser difícil me livrar dele.

 

Como você começou a desenhar?

Provavelmente como a maioria das pessoas, comecei muito novo – nem me lembro de não desenhar. Eu era um moleque muito elétrico, e um dia meus pais descobriram que eu parava quieto quando me davam papel e caneta – me botar pra desenhar virou um recurso pra que eles pudessem ter um pouco de paz de vez em quando.

 

Quem foram e são suas maiores influências no universo das HQs?

Putz, difícil essa. Eu sou tipo uma esponja, tudo que eu vejo me influencia, e as influências ainda se cruzam, TV, Cinema, livros, música… Mesmo falando só de quadrinhos, é melhor dividir em 3 “blocos”.

Os primeiros contatos foram na biblioteca bacana que tinha em casa, onde eu vivia enfurnado, nos longínquos anos 80. Lá eu conheci coisas tão diferentes como Asterix, Ziraldo, Henfil e Quino. Eu PIRAVA no Henfil – ele era muito inteligente e ao mesmo tempo tinha aquele desenho rápido, super intuitivo. E o Quino e sua Mafalda… devo ter lido todas as tiras pelo menos umas 3 vezes. É muito genial. Claro que fora da biblioteca, eu lia gibis da Mônica e Disney – eu lia tudo que achava.

Depois, nos anos 90, veio uma fase rápida de super-Heróis, mas o que me bateu mesmo foram as histórias do Alan Moore (Monstro do Pântano, Watchmen), do Neil Gaiman (Sandman), do Laerte e, um pouco mais tarde, do do Crumb e do Mutarelli. Nada deles era convencional, e isso me atraía muito. O nível desses caras vai ser difícil de ser batido.

Daí temos as coisas mais recentes, de 2000 pra cá. Seguramente o Chris Ware – há alguns anos atrás ele deu um nó na minha cabeça que eu não consegui desatar até hoje. O Jason – ao ler Pocket Full of Rain tive a primeira idéia pra fazer minha HQ, a LoveHurts. A dupla Eduardo Risso/Brian Azzarello e seus 100 Bullets. O Mike Mignola. E os brasileiros Fabio Moon, Gabriel Bá, Rafael Albuquerque e Gustavo Duarte, que eu tenho a sorte de admirar e ser amigo ao mesmo tempo.

Na verdade essa coisa de influência não para. Semana que vem com certeza eu posso citar umas novas. Trouxe livros do Charles Burns e do Joost Swarte da minha última viagem e ainda não li.

 

Todo mundo pensa nos bons quadrinistas como grandes ilustradores, e poucos se lembram que alguns são também grandes escritores. Você sempre gostou de escrever?

Muito legal você levantar esse ponto. Acho que isso acontece porque muitos quadrinistas são grandes desenhistas, mas não escrevem. Mas isso não é uma regra. Não é o caso do Mike Mignola, do Jason, do Chris Ware, do Gabriel e do Fábio, por exemplo. Todos eles escrevem suas próprias histórias. Sempre gostei de escrever e desenhar, e talvez por isso os quadrinhos, essa mistura tão peculiar de texto e imagem, tenham me pego de jeito desde cedo.

 

Se você tivesse que escolher uma única HQ como a clássica, qual seria? E se fosse um clássico literário, em quadrinhos?

Um!? Tipo, “o clássico definitivo”? O quadrinho que eu levaria pra uma ilha deserta? É muita responsabilidade. Tá, um monte de gente vai achar uma heresia, mas eu recomendaria Asterios Polyp, do David Mazzucchelli. Por motivos egoístas: é o quadrinho que eu mais queria ter feito na vida. O Mazzucchelli também adaptou A Cidade de Vidro, um conto do do Paul Auster, pra quadrinhos – não é um clássico literário, mas é muito bom (deu pra ver o quanto eu gosto do Mazzuchelli, né? Acabei esquecendo de citá-lo naquela pergunta das influências – mas agora corrigi).

 

Quais livrarias em São Paulo você indicaria para quem é fã de HQs? E em suas viagens, teve alguma descoberta especial?

Eu conheço 4 livrarias muito legais em São Paulo. A HQMix, que fica ali em frente à FAAP. A Comix, nos Jardins. A Gibiteria, em frente à praça Benedito Calixto, em Pinheiros. E conheci uma nova há algumas semanas, a Monkix, que fica numa galeria quase em frente ao Espaço Itaú de Cinema, na Augusta. Há uns meses eu fui pra San Francisco e conheci uma Comic Shop muito bacana chamada Mission: Comics & Art. Alem de ter vários títulos bacanas, nos fundos da livraria você encontra um pequeno espaço pra exposições. Quando eu visitei, tinha uma coleção de páginas originais de vários artistas: Kirby, Neal Adams, Romita…

 

Quais dicas você daria para quem está começando ou sonha ser quadrinista no Brasil?

NÃO fazer como eu fiz: eu adorava desenhar, inventar histórias, fazia fanzines, mas fui trabalhar em publicidade e fiquei abduzido por uns 10 anos. Era um plano meio maluco de fazer dinheiro pra bancar os sonhos que se estendeu demais. Fiquei tanto tempo que perdi a prática e a coragem, demorei pra conseguir fazer uma HQ de novo. Portanto, minha primeira dica é: faça agora mesmo. Sua HQ vai sair ruim, tudo bem, a próxima sai melhor. Tente se concentrar nas histórias: o que faz uma história se boa, interessante, porque ela vale a pena ser contada. Tudo nasce de uma boa história. E tente conhecer melhor seus artistas preferidos. Uma coisa que me ajuda muito é ler entrevistas longas com autores. Um livro essencial pra mim foi o Eisner/Miller, com horas de entrevistas com esses dois monstros (caramba, não tinha falado do Will Eisner e do Frank Miller também.)

 

** LoveHurts é uma história em quadrinhos independente lançada em 2011. A HQ é resultado de anos de relacionamentos, corações partidos e fanzines: uma coletânea sobre amores (e desamores).

Em janeiro deste ano, a LoveHurts recebeu o Prêmio Angelo Agostini como Melhor Lançamento Independente. Em julho, uma versão em inglês foi lançada na San Diego ComicCon. Agora, ela é vendida no mundo todo pela Khepri Comics, loja online especializada em quadrinhos independentes.

Murilo Martins
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