Textos

11 de dezembro de 2012

Oi… Milton?

Eu estava atrasado (mas não muito, coisa de 15 minutos) pra conversa com o Milton Hatoum que ia rolar no espaço b_arco, ali em Pinheiros, evento final da Balada Literária (com o sugestivo nome de “Ressaca Literária”). Estacionei na Dr. Virgílio, quase na Teodoro, “aí é só atravessar a rua e descer a escada”, pensei, me auto-parabenizando por mais essa manobra brilhante. Só que ali não tem faixa de pedestre, então fiquei um tempo esperando o trânsito dar uma parada pra poder passar no meio dos carros. Foi quando se aproximou pra esperar também um senhor de cabelos brancos, sobrancelhas pretas (e fartas) e óculos de aro grosso…

 

– Oi… Milton? (eu disse – na verdade, já sabendo)

– Oi, tudo bem? (só confirmando o que eu já sabia)

– Tudo. Você não devia estar na sua palestra?

– Pois é, estou indo pra lá.

– Que bom, porque eu vim ver você.

– Hehe, legal.

– Vim também pra te dar um livro, na verdade.

– Ah, é? Você estuda letras?

– Não, eu faço quadrinhos…

Cansado de esperar, Milton levantou a mão direita fazendo sinal para os carros pararem e deu um passo em direção à rua.

– Vamos?

Eu vacilei por um instante (Milton não tinha como saber que eu fui atropelado numa faixa de pedestres há mais ou menos um ano, e que até hoje ainda guardo um certo respeito por carros em movimento – sobretudo em vias SEM faixa de pedestres), mas fui atrás.

– Essa é a vantagem de ter uns cabelos brancos!, ele disse, enquanto atravessava (não entendi muito bem essa. Não se atropela gente de cabelos brancos? Por isso fui atropelado?)

Descemos as escadas e entramos no b_arco ainda conversando:

– Os gêmeos… Gabriel e o Fábio, estão adaptando meu livro, Dois Irmãos, pra quadrinhos, sabe?

– Sei sim. Eu ainda não vi nada, mas deve estar bonito.

– Tá ficando bem bonito, estou acompanhando…

– Ah, aposto que sim (notei algumas pessoas olhando pra ele… depois olhando pra mim com aquele olhar “mas quem é esse cara conversando com o Milton Hatoum?”. Daí alguém com passo apressado e cara de “até que enfim ele chegou” veio em nossa direção. Foi a minha deixa).

– Bom, depois da conversa eu te dou o livro.

– Tá bom, até.

– Até mais!

 

***

 

Nunca me arrependi de ir ver um autor falando ao vivo, “perdendo o sobrenome” por algumas horas. Milton acha que “o autor não pode acreditar nem na ciência, nem no progresso” (males que acometeram o positivista Euclides da Cunha e que fariam dele um “romancista melhor”). Que “estaria num outro barco, à deriva” não tivesse ele deixado Manaus.

Milton tentou ser poeta, mas hoje renega sua poesia veementemente. E não consegue escrever roteiros pra cinema, porque “o romance tem um lado subjetivo e psicológico que o cinema não comporta – só o Bergman que consegue isso – quando começo a escrever um roteiro eu entro nesse ‘devaneio psicológico’ do personagem e não dá certo”.

Como Cortázar, acha que “o conto é uma fotografia”. Concorda com Borges: “Ler é mais civilizado que escrever. Quando a gente escreve, rói unha, briga. Quando lê, não. Fica ali num canto, tranquilo”. Duvida dos escritores “que dizem sair escrevendo direto até sair um romance, pronto. Não é possível, isso. Os autores mentem muito.”

Tem uma profunda, profunda tristeza pela “destruição imobiliária” de Manaus (não é a primeira vez que sinto o pesar na sua voz quando toca nesse assunto)

Refutou duas (ou três) vezes o rótulo de “consagrado”. Acha que Faulkner sim, é importantíssimo na Literatura (“tocou na loucura americana, no racismo, não fez concessão pra bandeira do seu país”).

Foi categórico: “O escritor não pode fazer concessão a nada”.

 

***

 

Uma hora de conversa, meia na fila de autógrafo, e consegui falar com ele novamente.

– Oi de novo.

– Oi!

– Esse é meu livro.

– Ah, obrigado.

– É a versão em inglês – desculpe, é meio ridículo isso, mas em português está esgotado e eu queria muito que você tivesse. Eu queria também te mandar um em português quando eu imprimir mais.

– Você que vai imprimir? Não tem pra vender em livraria?

– É um livro independente, eu mesmo imprimi. Fiz duas tiragens e a segunda esgotou. E eu que vendo direto pra algumas livrarias…

– Ah, tá. (fiquei com a impressão de ele não entendeu muito bem. Eu esqueço que esse conceito de independente deve ser muito bizarro pras pessoas. Ainda mais pra um escritor que publica há tanto tempo. Mas decidi não explicar – a fila ainda estava grande.). Te dou meu endereço. Anota aí.

– Beleza. Assim que eu tiver eu te mando. Gabriel acabou de mandar um abraço por SMS.

– Outro pra ele. Obrigado pelo livro, viu?

– Obrigado você, Milton. Pelos livros, e por tudo mais.

E deixei ele lá, distribuindo seu sorriso, assinaturas e um dedo de prosa a cada leitor curioso.

Gentil, simpático e generoso esse Milton, viu?

 

 

* Ilustração do próprio autor. O livro independente mencionado no texto é a HQ LoveHurts.

Murilo Martins
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