Textos

17 de outubro de 2012

Aline

Aline é o tipo de lembrança que volta todo dia. Gosto de falar coisas pra ela como se estivesse ali, no banco vazio ao lado do meu lugar no metrô. Quando caçoo quieta de deslizes alheios, geralmente rimos juntas. É como se concordasse com a graça que vejo no mau gosto deles.

Foi nela que achei bonito pela primeira vez o sadismo. Tinha uma sofisticação esnobe que comunicava com o silêncio. Falava muito pouco. Comia porções mínimas. Nunca mostrou ansiedade por bolo de chocolate ainda quente. Arroz branco com vinagre de maçã era seu tipo de refeição deliciosa. Mascava chiclete o tempo todo, e quando recriminavam, respondia que o doce evitava que ela contasse da vida com hálito de morte.

Lembro que nada tirava a atenção dela das cutículas. Cutucava e raspava com tesoura até vermelhar a pele que fica em volta. Não gostava de esmalte de cor forte, mas acabava usando o vermelho pra disfarçar a inflamação que causava. Em casa, eu não podia pintar as unhas como ela. Então a gente ia até a farmácia, comprava esmalte branco e pigmentava com caneta vermelha. Antes que meus pais chegassem do trabalho, raspávamos com a tesoura. Um dia, cortei fundo a mão e por isso fiquei sem vê-la por meses. Nas minhas contas, até o próximo aniversário dela, uma semana antes do natal.

Foi o maior tempo que ficamos separadas.

Na véspera dela completar 14 anos, passamos o fim de semana na chácara dos meus pais. “Dormir em colchões no gramado úmido de sereno, derrubar estrelas e enrugar a pele na piscina.” Ela levou um disco que tinha ganhado por causa do aniversário. Ouvi The Cure pela primeira vez. Na época, dizíamos que tatuaríamos qualquer letra deles na pele. Na época.

Nunca mais a vi com vida depois desses dias.

Aline é uma prima minha. Nascemos quase juntas, diferença de um mês. O que faz dela capricórnio e eu aquário. Só por isso, eu nunca achei chato ela não parecer criança quando era pra ser, e achei encantador ela parecer tão adulta quando eu ainda não via charme algum nos adultos. Também por isso, cresci acreditando que capricornianos não comemoram nada, nem na infância.

Ela se matou dois dias antes de um natal e três depois de nosso último encontro. No desenho, é ela de olhos abertos no caixão. Eu mesma abri seus olhos na ocasião, e eles estavam nessa mesma posição, olhando os dois pra um mesmo lado. O hematoma no olho é porque deu um tiro na cabeça com uma garrucha de uma bala, guardada pela avó paterna no próprio guarda-roupa da Aline.

Todo mundo sabia que ela se mataria um dia. O tiro na cabeça foi a segunda tentativa. A primeira foi em um rio, na chácara dos meus pais, no começo daquele ano.

Minha prima me marcou como poucas coisas na vida fizeram até agora. Era tão invisível que doía na gente. Imagina nela. Acontece que Aline não era ausente. Simulava ausência e, ao mesmo tempo, gritava pânico. Sua presença pesava tanto, que não duvido que ela tenha entendido que ninguém a queria aqui. Uma vez ouvi que é o tipo de erro de Deus, natimorta, existência que precisa parar por ser fantasma vivo.

Não pra mim. Aliás, a gente riu quando ouviu isso.

 

* A linda aquarela é criação da própria autora.

 

Natacha Cortêz
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