Textos

04 de janeiro de 2014

Até quando você quiser, Ceará

Ainda peco por afastar abraços e limpar babas de beijo que restam na bochecha. Sorte minha que o Everton me leu no primeiro encontro, me deixou ser grossa enquanto me derrubava com a rabugência pela qual hoje fica inesquecível. E tudo sem esforço nenhum, não, meu querido? Não me lembro de ter te visto fazendo sala pra ninguém. Pelo contrário, obrigava que gostassem de você, abria a geladeira sem pedir, roubava cobertores, roubava travesseiros, cigarros, mendigava dinheiro.

Era pra ser difícil gostar de você, era pra te expulsarem. Só que então te pediam pra ficar, insistiam na sua presença, porque sem ela faltava alguma coisa. De repente, eram suas coreografias frenéticas e bem ensaiadas, que traziam um pouco do brega e um tanto de sofisticação. Nunca te falei: você é meu dançarino preferido, seguido do seu menino girafa. Tenho orgulho do que fez com aquele coração que parecia irremediável. O menino caiu de amores por você, logo por você, que fez tudo errado no jogo da conquista. Não se mendiga amor assim, Ceará. Mas você não jogava. Pra te ter, era preciso te querer mais que tudo. O câmbio era claro: “vou ser eu, não pretendo me ajustar. Me ame ou me odeie”.

Por causa da sua legítima inflexibilidade, brigamos igual irmãos, ou como cão e gato, ou qualquer coisa que morda e receba arranhões de volta. E você não cedeu, não facilitou, nunca me agradou. Mesmo assim, eu me apaixonei, porque (e isso você gostava de dizer sempre aos berros) eu gosto de quem não corteja, gosto de mal tratos.

Em nove anos, você não cumpriu quase nada do que prometia com toda a convicção do mundo. Escolheu me dever três dúzias de resoluções, se atrasou todas as vezes por dormir além do despertador e me visitou muito menos do que eu queria. Mas, nesses mesmos nove anos, festejou meus abraços bêbados com a vontade que nenhum outro fez – fazia com que eles demorassem mais do que o gin permite -, atendeu minhas ligações em horários pouco respeitosos e ouviu meus conselhos tortos com a atenção de quem adoraria segui-los, me deu o inesquecível prazer da sua companhia em troca de um prato de qualquer coisa agridoce e melada.

Escrever que você me trouxe uma coleção das mais emocionantes e marcantes memórias da minha juventude é verdade absoluta, mas é pouco. Escrever que eu te amo desde a primeira mordida é simplório. Declarar que a sua falta marca o tempo é óbvio, perceptível a qualquer coração pouco atento. Nada vai ser o mesmo sem você, meu amigo. E nem é pra ser. A sua saudade eu faço questão de chorar, porque junto com ela estão as gargalhadas mais livres e debochadas que encontrei.

Volta, e não deixa a preguiça te atrasar. Fico te esperando com a porta da geladeira aberta, uma porção de abacaxi com pimenta e o travesseiro do Bru bem quente. Chega quando quiser, como quiser. Só não vai de vez.

Natacha Cortêz
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