Textos

10 de fevereiro de 2012

Buenos Sweet Aires, sem você, nunca mais

Deixei pra fazer as malas nas útimas horas. Não são só mudas de roupa e sapatos encardidos que voltam comigo. Na noite de ontem, me larguei em um café aqui do lado do hostel, enchi a cara de vinho e alfajor e prometi que não deixaria Buenos Aires sem ao menos meia dúzia de corpos esquartejados na minha bagagem. Mordi a língua, sempre mordo. Não é a primeira vez que faço uma viagem de muito tempo, nem a minha primeira vez aqui. Mas essa foi a primeira viagem que fiz o que costumava negar para minhas teorias de viagem. Saí de mim e resolvi ser estranha comigo mesma. Prometi que faria minha melhor amiga, e também minha parceira de Argentina, questionar meus comportamentos. Durante meu mês em Buenos Aires fiz mais amigos do que nos últimos vinte anos. Experimentei exagerar em tudo que costumo me privar. Não quis parar para pensar nem por um minuto.

Antes de vir pra cá, conversando com um querido amigo eu ouvi: vai reeditar sua Buenos Aires, nada precisa ter as mesmas referências pra sempre. Foi exatamente assim. E eu quis repetir todo o roteiro do último fim de ano, aquele de 2010. Refazer todo caminho antigo que a cidade pode oferecer, beber vinho até no café da manhã, dançar regatone, assistir ao tango, comer empanadas como quem come pão francês, tomar água com alto teor de sódio e cansar as pernas entre Recoleta e San Telmo. Fiz de propósito, mas fiz querendo tudo diferente.

Encontrei sotaques que zumbem no ouvido até agora; me assustei com cores de olhos que pra mim só eram possÌveis com edição de imagem; assisti às ondas de um rio com cheiro de mar, gosto de mar e pedras de mar com o paulistano mais paciente e sereno que já conheci. Penso que eu nunca encontraria o Rogério em Sao Paulo. Histórias opostas o bastante para se esbarrarem por lá, mas com o timing perfeito para se cruzarem aqui. Minha segunda B. A. tem outro gosto. Outros gostos. Tem o gosto irônico da minha cidade natal às seis da manhã; gosto de dor de garganta e cigarro azul no final da tarde; gosto agridoce de gin e vinho no mesmo copo.

Voltar pra cá ainda me trouxe planos bêbados, que insistem depois de ressacas indecentes de vodka e Michel Teló. Planos acordados em conversas que atravessaram a noite e hoje são conduzidas por esperadas mensagens de texto, que me acordam na madrugada graças a uma diferença de seis horas de fuso. Ficou fácil me mudar pra qualquer canto de Israel, ficou fácil me apaixonar por mim e só depois me apaixonar por outras mãos.

Das coisas que eu esperei, nenhuma aconteceu. Das coisas que eu teimei não querer, ou mesmo não tive coragem, todas aconteceram. Das coisas que eu quero agora, só uma: voltar. Ir e voltar. Nunca mais deixar de voltar.

Baires (como eu e meus amigos a chamamos) não seria tanto se não tivesse me levado a qualquer lugar. Me deixou na porta de casa, me levou pra chuva, me tirou de Higienópolis, me trouxe para o México. Me levou ao meu pai todas as noites, deixou que eu olhasse nos olhos do meu irmão no meio da Avenida de Maio. Me disse que eu tenho uns onze corações entre Eslovênia e Alemanha.

Meu amor, sem você, nunca mais.

Natacha Cortêz
Leia mais textos de Natacha aqui.