Textos

02 de agosto de 2012

Da Karol, mas não a sua

Eu começaria qualquer texto mentindo se dissesse que poucas coisas me lembram você. Eu começaria qualquer dos meus dias enganando a mim mesma se não usasse os primeiros trinta segundos deles pra sentir saudade do cheiro de sono que a vida resolveu me deixar assim que te tiraram da minha casa pra te eternizarem em lençóis desinfetados por produtos hospitalares. Mesmo assim, desde aquele outubro mais improvável, eu escolho mentir por 18 dias seguidos antes de olhar pra isso aqui e decidir que, no fim das contas, tudo depois de você tem cara de mentira.

Então vem mais um outubro e dele ninguém mais duvida: o que ficou pra mim é a certeza de que os outubros não são de fazer miséria, nem lidam com o provisório. Outubros são como instintos de morte, mas sem a parte do instinto. É o mês que mata sem ensaiar.

Sorte minha se houvessem os ensaios. Mas sorte foi outra coisa que você levou contigo. Não que você acreditasse nela, nem que você quisesse que eu acreditasse também. E eu lembro sim do que prometi pela gente e que agora eu não deveria vir com essa conversinha de sorte. Coisa de gente fraca e protegida, não é assim? Não trabalhamos com benefícios, Karol. Não mesmo, pai. E desculpa se eu peço por eles logo agora. A casca que devia me fazer sonsa não aconteceu da forma que combinamos.

Acertou. A culpa é toda dela. E você que tinha naquelas mãos seu maior medo e sua maior entrega. Medo de esquentar o coração gelado mantido nas mais baixas temperaturas e abstinência de abraços. Entregas entorpecidas que confiaram em alguém que falharia uma vez e nunca mais. Mas foi bem assim, um descuido dela e você, menino de tudo, caiu cedo demais.

Vou te contar que, hoje, o coração adestrado por você é o órgão mais fraco aqui.

Não tem nada da braveza investida nos 18 anos de tatos e cuidados teus. Virou daqueles corações levianos, sem critério e cheio de desespero. Coloca qualquer bigode no lugar do teu, brinca de entortar falanges que não as suas. Nem parece com o dono, sabe?

Sabe sim. Não te contei antes porque tentava manter o trato. Perdoa? Não vou dizer que vai mudar. Penso que ele só seria como você se fosse teu. E é, mas não a todo tempo. Às vezes é coração de bêbado, às vezes quer ser livre pra poder se perder, mesmo que de você. Daí que tô pecando em novas vontades. Daí que até vontade de amores que jamais te agradariam. Insisto: tudo culpa dela que me deixou abrir todas as portas que você guardava a sete chaves.

Tô gostando do estrago, pai. E já tenho gosto dele. É o preço que se paga por ter tido tudo sem saber quem era eu. E agora a culpa vira sua. Girls, a banda que você odiaria que eu amasse, fala melhor que eu. Porque quanto à covardia, essa não combina com você, mas é minha nova melhor desculpa.

I wish I had a father

And maybe then I woulda turned out righ

But now I’m just crazy, I’m totally mad

I’m just crazy, I’m fucked in the head

And maybe if I really tried with all of my heart

Then I could make a brand new start in love with you

 

Natacha Cortêz
Leia mais textos de Natacha aqui.