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18 de junho de 2015

Mulheres e literatura

Mulheres, literatura e mais uma provocação

Os ânimos não se acalmaram desde a criação da hashtag #readwomen em 2014. Pudera, a começar pela programação da Flip deste ano, quase nada mudou

 

Era novembro de 2014 quando a gaúcha Luisa Geisler, que venceu o Prêmio Sesc de Literatura aos 19 anos e hoje autora de dois romances, afirmava no jornal fluminense O Globo que escreve “como mulher, sim”. Geisler se posicionava contra os “elogios sinceros” que costuma receber — os de que escreve como um homem.

No mesmo texto, a escritora admitia o sexismo na literatura e criticava a escassa presença de mulheres em prêmios e antologias recentes, como a nacional Por Que Ler os Contemporâneos — Autores que Escreveram o Século 21 (ed. Dublinense). “O meio literário é machista e nada disso é consciente. Aliás, machismo dificilmente é consciente. Nunca é uma cúpula de homens rindo maleficamente e planejando: ‘vamos calar todas as mulheres por serem tão inferiores!'”, dizia Geisler, que por fim, concluía: “Não sugiro cotas. Sugiro ler mulheres, e só”.

A antologia mencionada por ela diz muito sobre mulheres e literatura: entre seus quatro organizadores, há duas mulheres, mas entre os 101 autores citados na obra, temos apenas 14 autoras. Pouco mais de 10% do total.

“Por motivos históricos diversos, as mulheres, até pouco tempo — estou pensando ao longo da história, não semana passada — só eram alfabetizadas para fins de etiqueta (…). Claro que tivemos algumas que conseguiram escrever mesmo assim, como Mary Shelley e Jane Austen, mas elas são exceções”, argumenta Clara Averbuck, uma das criadoras do site Lugar de Mulher e autora de seis livros, no texto Escrever como Homem?.

Em janeiro de 2014, a escritora e ilustradora britânica Joanna Walsh criou no Twitter a hashtag #readwomen2014, uma das mais comentadas do ano. A campanha propunha que as pessoas passassem a ler mais livros escritos por mulheres. “Eu só queria celebrar a obra de escritoras, mas o movimento cresceu. Percebi que existiam muitas outras pessoas insatisfeitas”, contou Walsh por e-mail à Confeitaria. A hashtag teve ampla repercussão, ganhando versões em outros idiomas. No Brasil, a própria Luisa Geisler incentivou  o uso de #leiamulheres2014.

 

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Em 2015,  três mulheres, Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques, criaram um clube de leitura inspirado neste movimento, o Leia Mulheres, que acontece mensalmente na livraria Blooks em São Paulo. A participação é livre e gratuita, e as resenhas dos livros discutidos até aqui foram publicadas na Confeitaria, como foi o caso de A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath, Reze pelas Mulheres Roubadas, de Jennifer Clement, e A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin. O clube também tem acontecido na Blooks do Rio de Janeiro e na Livraria Arte & Letra, em Curitiba, e se insere em um contexto mais amplo, em que outras iniciativas com propósitos semelhantes têm surgido, reavivando o debate.

Anos antes, em 2012, a professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília, já expunha os sintomas de uma alarmante falta de representatividade de mulheres na literatura nacional. No livro Literatura Brasileira Contemporânea: Um Território Contestado (ed. Horizonte), Dalcastagnè concluiu que, entre 1990 e 2004, os homens representaram 75% dos autores publicados no país. A pesquisa foi além e desenhou um perfil majoritário de quem publica no Brasil: 70% dos autores vêm de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, e 93,9% desses escritores, entre homens e mulheres, são brancos. Ou seja: uma literatura que privilegia apenas uma parte do território nacional e tem como protagonistas escritores homens brancos.

O assunto é polêmico; o livro de Dalcastagnè, também. Apesar de apresentar dados expressivos, o trabalho foi criticado por especialistas da área. Alguns disseram que a professora limitou o recorte de seu objeto de estudo. Na época, ela escolheu três grandes editoras nacionais para analisar: Companhia das Letras, Record e Rocco. Mas o que aconteceria se o recorte incluísse as independentes e outras menores? Os resultados ainda seriam os mesmos?

Dalcastagnè se defende: “São as grandes editoras que fazem os livros chegarem a todas as livrarias do país, que conseguem resenhas nos jornais e traduções para o exterior. Portanto, são elas que consagram um autor, sem que haja aqui qualquer julgamento de valor literário. Creio que a pesquisa chama a atenção para o fato de que ‘literatura’ não é apenas aquilo que está entre as duas capas de um livro, mas algo que envolve muitas outras questões, inclusive sociais, que precisam ser refletidas”.

Estamos em 2015, a duas semanas da Flip, a maior festa literária do país. Ao que parece, nem o texto de Geisler, nem as populares hashtags, clubes de leitura e críticas sensibilizaram a organização do evento. O desequilíbrio da programação permanece: desta vez serão 8 mulheres e 29 homens. No Twitter e no Tumblr, o movimento KDmulheres questiona: “Será que a diversidade não importa para a organização do evento?”

Autoras nunca foram maioria na Flip. Elas sequer chegaram perto de um empate. Em 2014, entre os 44 convidados do evento, apenas 7 eram mulheres. Em suas 12 edições, apenas uma escritora foi homenageada: Clarice Lispector, em 2005.

Conversamos com a autora brasileira Andrea del Fuego, ganhadora do Prêmio Saramago de 2011 por seu primeiro romance, Os Malaquias (ed. Língua Geral). “Já sentiu dificuldades de publicar? Já se sentiu preterida em relação aos autores homens?”, perguntamos. “Nunca me senti preterida em relação aos homens, não na literatura, mas na vida, sim. A resposta é ambígua, porque estando a literatura na vida, acho que sublimei alguma coisa no caminho”, respondeu ela.

Em um artigo publicado recentemente no jornal britânico The Guardian, a escritora paquistanesa Kamila Shamsie desafiou editoras a publicarem apenas obras escritas por mulheres: “Eu diria que é tempo para todos, homens e mulheres, de começarem uma campanha para corrigir a desigualdade. Por que não ter um ano de publicação de mulheres? 2018, o centenário de mulheres com mais de 30 anos conquistando o direito ao voto no Reino Unido, parece apropriado”.

Em resposta, a editora-chefe da pequena editora britânica And Other Stories, Sophie Lewis, disse que sua equipe irá reagendar o lançamento de livros de escritores homens para outros anos, e procurará mulheres que queiram publicar em 2018. “Vamos acabar nos tornando uma espécie de modelo em pequena escala para uma pergunta muito maior sobre por que a escrita feminina é consistentemente marginalizada ou secundária”, disse.

 

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Quanto as premiações, os livros protagonizados por mulheres são menos propensos a ganhar prêmios de acordo com um estudo noticiado no Guardian: uma análise dos últimos quinze anos das seis maiores premiações literárias do mundo ddemonstrou que livros com protagonistas masculinos costumam ser os premiados.

A pesquisa deDalcastagnè, comentada mais acima, também destaca narrativas predominantemente masculinas. Nos 258 romances analisados por ela, 62,1% dos personagens importantes eram homens e, entre os protagonistas, eram uma maioria ainda mais expressiva: 71,1%.

Por Skype, perguntamos a Joanna Walsh sobre a repercussão de sua hashtag, mais de um ano depois. Ela conta que, através da campanha, ficou conhecendo outras realidades em que os dados se repetem, quando não se agravam. Recentemente, uma editora do Nepal lhe disse que as mulheres por lá raramente são publicadas e, quando são, seus livros são categorizados como menores, não são considerados literatura. Essa mesma editora observou que pouquíssimas mulheres ocupam cargos de liderança no mercado editorial. Na Grã-Bretanha, mulheres e homens são publicados em números relativamente iguais, afirmou Walsh, que acredita que o sexismo na literatura britânica é mais sutil, embora permaneça. Por exemplo, na promoção dos livros. As obras escritas por mulheres muitas vezes são sugeridas como leituras adequadas para outras mulheres, enquanto as obras escritas por homens teriam um caráter mais universal.

A ótima reportagem do Suplemento Pernambuco, A insustentável existência do outro, de Carol Almeida, faz um paralelo entre a reivindicação de Virginia Woof em um ensaio de 1929 — Woolf falava sobre as “dificuldades materiais” para escrever que cercavam a mulher sem a emancipação de um teto para chamar de seu, sem dinheiro próprio ou sem autonomia em dizer que não estava ali para servir um chá — e o cenário que tem uma escritora nos dias de hoje. Mulheres, ao menos as que ousam criticar o mercado editorial, como Joanna Walsh, Luisa Geisler e Clara Averbuck, estão provocando reflexões importantes. Reconhecem o sintoma para legitimar a luta e buscar a transformação.

No último domingo, dia 14 de junho, a Confeitaria lançou o seu primeiro fanzine, uma antologia de textos e ilustrações que tem o tempo como tema. Dos 25 autores e colaboradores do projeto, mais da metade são mulheres. Antes, em março deste ano, lançamos também o livro, Não Conheço Ninguém que Não Seja Artista, uma conversa entre duas autoras: a poeta Ana Guadalupe e a fotógrafa Camila Svenson. Desde que nos tornamos um selo editorial, essa tem sido uma preocupação da Confeitaria, temos nos empenhado em tentar equilibrar as estatísticas. Em nosso primeiro livro, as mulheres já eram maioria. Agora, nossa intenção também é lutar para diminuir a disparidade racial que infelizmente também faz parte do mercado editorial: a maior parte de nossos colaboradores ainda é branca, e nesse sentido refletimos uma estrutura que também precisa ser questionada.

O mundo de hoje ainda é predominantemente heteronormativo, branco e continua favorecendo os homens, que têm melhores salários e condições profissionais, continuam recebendo mais espaço e privilégios. Enquanto essa lógica se manter, enquanto houver abismos de oportunidades e direitos entre pessoas, a voz das margens precisa ser ecoada. Mulheres são menos publicadas, ao menos pelas grandes editoras, participam menos de feiras literárias ganham menos prêmios e menores salários, e não são menos talentosas ou capazes. Isso deveria bastar pelo textão.

 

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* Imagens: homenagem a 40 escritoras de diferentes nacionalidades, épocas e gêneros literários. Em ordem, da esquerda para a direita, temos:

1) Chimamanda Ngozi Adichie, Jennifer Egan, Virginia Woolf, Alice Munro, Joyce Carol Oates, Hilda Hilst, Mary Shelley, Susan Sontag, Simone de Beauvoir, Emily Dickinson.

2) Sylvia Plath, Gyllian Flynn, Agatha Christie, Zelda Fitzgerald, Cheryl Strayed, Alice Walker, J. K. Rowling, Roxane Gay, Mary Oliver, Elizabeth Gilbert.

3) Joan Didion, Maya Angelou, Clarice Lispector, Anne Rice, Kaui Hart Hemmings, Maria Carolina de Jesus, Lionel Shriver, Marjane Satrapi, Marguerite Duras e Patti Smith.

4) Zadie Smith, Patricia Highsmith, Doris Lessing, Margaret Atwood, Pam Houston, Wislawa Szymborska, Gabriela Mistral, Ana Maria Gonçalves, Cecilia Meireles e Toni Morrison.

 

Natacha Cortêz
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