Cinema, Resenhas

01 de outubro de 2015

Ilustração:
Thiago Thomé

Fed Up

A julgar pelo documentário Fed Up (EUA, 2014), existe um abismo entre o senso comum e a realidade. Meio século de distâncias e desinformação. Em pouco mais de 50 anos, o americano perdeu a capacidade de identificar o que é comida. A alimentação diária de milhões de pessoas consiste em alimentos processados, modificados, industrializados, edulcorados e mantidos em sal para durarem mais nas prateleiras dos supermercados. Forno, fogão, verduras, legumes e alimentos integrais estão praticamente extintos. Tal descolamento deflagrou uma epidemia de obesidade no país que atinge crianças, adolescentes em fase de crescimento e adultos. A obesidade já mata mais que a desnutrição. É muito grave.

Produzido por Laurie Lennard (diretora de Uma Verdade Conveniente), Fed Up é altamente gostável. Estreou ano passado no Festival de Sundance com menos barulho que Food Inc. e Super Size Me, mas seu tema é o mesmo: a alimentação moderna moldada pelas grandes corporações. O filme acompanha a luta de quatro crianças obesas contra a balança, a reação dos pais e a dinâmica à mesa dessas famílias. O quadro é desanimador, porque não há reação adequada: ao ouvirem diagnósticos assustadores de médicos e pediatras (seus filhos não estão apenas acima do peso, mas já desenvolveram diabetes, colesterol, síndrome metabólica), os pais se limitam a trocar a marca de cereal e encher o armário de comida light.

Stephanie Soechtig, que dirige o longa, grava as reclamações dos adolescentes via webcam e em cenas ao redor da mesa e nas escolas que frequentam. Stephanie também entrevista os pais. Um deles lamenta o fato de o filho comer mal na escola e assaltar a geladeira à noite atrás de doce, mas fazer o quê, a família tem histórico de sobrepeso. Sua mulher o socorre com mais pântano: entre nós hispânicos, diz ela, ser gordinho é sinal de saúde. Para resolver o drama, o casal decide autorizar a cirurgia bariátrica do filho. Médicos, cientistas, políticos (até Bill Clinton, o FHC dos EUA) e jornalistas (Michael Pollan e Mark Bittman entre eles) constroem o argumento fundamental do filme: o de que a epidemia de obesidade nos EUA tem culpados vestidos de colarinho branco que abusam da ignorância de populações desfavorecidas.

Apesar de dimensionar corretamente o problema da obesidade infantil, o filme tem estrutura frágil. As informações vão se acumulando, comparadas como se fossem compatíveis. Não são. O drama é por demais complexo. A solução parece escapar das mãos dos pais, que não conseguem controlar a gula dos filhos, mal alimentados dentro de casa, na escola e nas ruas.  

Logo no início, o documentário parece menosprezar os benefícios dos exercícios físicos, incapazes de desacelerar a curva ascendente de obesidade no país. E como ele chega a essa conclusão? Com dados (“Estatísticas servem para provar qualquer coisa”, diz David Simon, criador da série The Wire). Botar a América na academia não adianta, diz o filme, porque entre 1980 e 2000, o número de matriculados em academias de ginástica dobrou, na mesma medida que a obesidade, que também dobrou. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. (Estes e outros escorregões têm sido exaustivamente resenhados por especialistas ou por quem quer simplesmente bagunçar o coreto, e o empurra-empurra prossegue.)

Em outro trecho, o filme tenta provar que comida pronta não é sinônimo de comida mais barata. Compara o preço de um frango inteiro e seus temperos versus quatro Meal Deals (os combos de fast-food e de comida pronta vendida nos supermercados), numa refeição simulada para uma família de quatro pessoas. No filme, o jantar feito com frango é mais barato que as porções de comida de um fast-food. Não é preciso pensar muito: os EUA são grande demais para generalizações desse tipo, e a comparação é enganosa. Até mesmo em cidades que valorizam o pequeno produtor, como Portland (Oregon) — leia aqui um bom artigo sobre isso — e San Francisco, combos de comida pronta têm preço extremamente competitivo, o que só prova a esquizofrenia do governo para lidar com o lobby da indústria de alimentos no país. Famílias de baixa renda, pais e mães que trabalham 2 ou 3 turnos e mal têm tempo para dormir, raramente vão querer cozinhar em casa quando podem pagar pela refeição pré-pronta.

O uso hiperbólico de dados enfraquece o documentário, de um lado, mas Fed Up mira certo quando aponta o fuzil para a indústria de alimentos que, em resposta à pressão da opinião pública, aceitou satisfeita reformular a receita da comida que vende, tirando gordura e turbinando a comida de sal e açúcar para melhorar seu sabor. O governo falha sistematicamente na fiscalização dessa indústria. Para reduzir custos de mão-de-obra, a política liberal de Reagan abriu caminho para que redes de fast-food, fábricas de refrigerantes e de comida pronta assumissem os bandejões das escolas. Em mais de uma ocasião o Congresso foi alertado para os riscos de fazer vista-grossa. Michelle Obama bem que tentou, mas seu programa Let’s Move, coisa de 2 anos atrás, foi apoiado por todas as empresas que combatia e totalmente descaracterizado.  

No filme, a resposta dos pais em relação à obesidade dos filhos é a mesma. A maioria busca alternativas na própria indústria de alimentos, e não em comida de verdade, para mudar a dieta em casa. Se a situação é extrema, as pessoas preferem se submeter, elas e seus filhos, a procedimentos radicais, com risco de vida. É preciso entender que a indústria de alimentos que lota os corredores dos mercados é a mesma que processa a merenda escolar, e que o dinheiro que as sustenta é governamental. Na outra ponta, o resultado dessa concentração de investimentos põe em xeque a sobrevivência da pequena produção de hortifrútis e a agricultura tradicional.

De qualquer forma, cozinhar é luxo de quem tem tempo, mas ninguém abre mão de perder tempo vendo TV ou navegando pela internet. Podiam ao menos exigir melhor merenda escolar para os filhos, mas Jamie Oliver é constantemente esculhambado quando vai à América falar sobre educação alimentar nas escolas. A ação política anda tão distante da vida cotidiana que, para muitos, “as coisas são como são”. Enquanto isso, crianças e adultos abastecem os carrinhos de supermercado com cereais, chips light e sucos (puro açúcar), crentes de que estão fazendo o melhor, porque alguém, talvez seus médicos, nutricionistas ou até a imprensa, subsidiados pela indústria, lhes ensinou a contar calorias e a evitar gorduras. Neste ponto, o diagnóstico de Fed Up é preciso.

Olívia Fraga
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