Cinema, Resenhas

10 de setembro de 2015

Festins Imaginários

De almoço era café, um caldo escuro e insosso. As que trabalhavam em fábrica comiam pão, geleia e um naco de linguiça. No jantar, sopa com aparas de legumes, restos da cozinha dos oficiais da SS, a força paramilitar dos nazistas.

O medo da morte apavorava menos que a fome. A perda das forças nos ossos e nos músculos era o primeiro sinal da aniquilação, o início do fim. A fome dói, e a morte pode pôr fim à dor, mas também encerra o banquete que é a vida. Nos campos de concentração da 2a Guerra, o sonho de cada prisioneiro era sentar-se à mesa e se fartar de comer.

Para dezenas deles, fugir da barbárie era preservar a memória do mundo que estava a um passo de se desintegrar. E eles escreviam poemas, cartas e reflexões. Também cobriam cadernetas, cadernos e folhetos falando de comida e receitas culinárias, guardadas em segredo absoluto e escritos à mão com letra perfeita, sem pressa nem garrancho.

Alguns destes papéis sobreviveram, guardados pelos sobreviventes e suas famílias. A cineasta francesa Anne Georget, diretora do documentário Festins Imaginaires (Festins Imaginários), morava em Boston quando leu uma dessas histórias, num artigo escrito pela jornalista Laura Shapiro sobre o caderno de receitas de Mina Pächter (transformado em livro por Cara de Silva). Mina era marchand, viúva e tinha mais de 70 anos quando foi presa e levada de Praga a Theresienstadt, o campo de concentração da cidade de Teresín. Lá, em meio ao caos, recolheu folhetos de propaganda nazista e cobriu todos os espaços em branco com receitas simples de cozinha. Antes de morrer, com a saúde debilitada, endereçou a cadernetinha para a filha Anny, que havia imigrado para a Palestina. Anny só soube da existência do volume duas décadas depois, quando se mudou para Nova York.

“A história de Mina e de Anny me emocionou tanto que decidi transformá-la em documentário [Mina’s Recipes, lançado em 2007]”, conta Anne Georget, em entrevista por e-mail. “Depois dele, muita gente começou a me procurar para falar que os parentes haviam feito a mesma coisa, entre eles homens, o que realmente me surpreendeu.” Anne descobriu relatos semelhantes em gulags — campos de trabalho forçados para onde levaram os presos políticos da ex-União Soviética — e em prisões de guerra no Japão. “Entendi que este era um fenômeno que precisava ser explicado melhor: em face da aniquilação, o homem retém tudo aquilo que o define.”

Festins Imaginários é costurado com a narração em voz sussurrada da leitura das receitas, enquanto a câmera passeia pelas páginas dos cadernos. Praliné. Pot au Feu. Bolo de chocolate. Strudel. Cenas externas dos campos alternam-se com depoimentos de sobreviventes, parentes e entrevistas com psicólogos, filólogos e historiadores, entre eles Antonio Damasio, Jérôme Thélot, Luba Jurgerson, Yehudit Inbar, Nadia Buntman e Michael Berenbaum. Tomado de silêncios e takes nas prisões desertas, em imagens de hoje, o documentário é uma reflexão debruçada na própria escrita e no que ela representa.

Edith Combus, cujas cartas são lidas no início do longa, nunca havia feito ou provado ovos mexidos. Ouviu a receita de uma colega de campo e a descreveu. Malka Zimmet também usou folheto de propaganda nazista para falar de comida. Meninas e mulheres como Vera Bekzadian, presa em 1938 e deportada para um gulag em Potma, roubaram tecidos e panos onde escreveram suas receitas, e o faziam ao ar livre, a -30°C, no intervalo dos trabalhos forçados na floresta gelada da Mordóvia.

Christine Hingouët-Cabalé, sobrevivente da prisão em Ravensbrück, conta que as mulheres, empilhadas umas por cima das outras em quatro andares de beliches, passavam a noite toda falando baixinho de comida. “A fome é do que me lembro mais. Não da tortura, dos tapas.” Algumas das companheiras roubavam papel na fábrica da Siemens, onde trabalhavam 12 horas por dia, e as canetas eram surrupiadas do escrivão. “Era um prazer enorme, falar daquilo que a gente nem conhecia fazia todo mundo esquecer do resto, consolidava a camaradagem.”

Marcel Letertre, deportado para Flöha em abril de 1944, descreveu receitas de sua família em pedaços furtados da fuselagem de um avião, correndo o risco de ser descoberto e morto. “Nós sonhávamos com comida o tempo inteiro, mas ninguém acordava do sonho dizendo que tinha comido. Sempre acabava antes”, conta André Bressière, um de seus companheiros no campo. Em 175 páginas, o sargento americano Warren Stewart, preso em Kawazaki de 1941 a 1945, chega a descrever ingredientes como um enciclopedista. Classifica pimentas, temperos, ervas, nozes, amêndoas e doces de açúcar. Há 56 (!) receitas de molhos, 26 tipos de sopa.

“Não há um livro tão sofisticado como o dele, talvez porque, entre os prisioneiros, ele era o que estava mais afastado de seu próprio mundo, vivendo no Japão”, conta Anne. “Talvez tenha havido certo machismo por parte dos historiadores, deixando de lado o que se pensava ser ‘assunto de mulher’. Se toda a historiografia anterior tivesse dado ouvido a estes relatos, certamente não nos chegariam como fato novo. Alain Resnais chegou mesmo a filmar uma cena sobre o assunto já em 1955, em Noite e Neblina. Também não podemos nos esquecer que, para as famílias, este tipo de ‘entretenimento’ e prazer feria um pouco a imagem de sofrimento e dor que nós temos sobre os campos de concentração. Mas aí é que está a força desses cadernos.”

A consciência de que o mundo está acabando e que não há ponto de retorno faz o espírito — e o grupo — resistir de forma surpreendente. As lembranças mais mundanas de antes da guerra plantavam sorrisos que desafiavam a morte e a desesperança entre os prisioneiros. Foi deliberada a decisão de Anne Georget de não mostrar qualquer comida no documentário. Ela também não se detém na análise dos costumes, técnicas e receitas dos cadernos. Comida é igual à vida, e o documentário só quer saber de sobrevivência.

Olívia Fraga
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