Cinema, Resenhas

15 de junho de 2015

Kurt Cobain: Montage of Heck

Kurt Ritalina

Ser o mais honesto possível com a história de alguém significa, por vezes, sucumbir ao peso do retratado. Kurt Cobain era um buraco negro. Um rapaz adjetivado — o que ele era e o que sentia representam, hoje, muito mais do que o que ele fez.

(Nirvana foi menos importante que seus contemporâneos R.E.M. e Radiohead, para ficar só em dois exemplos?)

O último ato de Cobain é sua síntese. Tudo o que ele mais queria era desaparecer. A motivação se desenhou mais clara ao final: 1 mês antes de se suicidar com um tiro, em 1994, Kurt Cobain tomou dezenas de comprimidos quando desconfiou de uma suposta infidelidade da mulher, Courtney Love. “Ele era muito sensível. Eu não o tinha traído, mas já havia pensado nisso. Sou muito namoradeira, flerto até com cadeiras. Ele sentiu.”

O documentário Kurt Cobain: Montage of Heck (EUA, 2015) nos esgota. Passados 40 minutos de projeção (e o filme tem quase 2h20), pouco antes de surgirem as primeiras cenas sobre o Nirvana, o cansaço é quase intolerável. O tema da tela é a insatisfação de um menino obcecado pela escrita, pura adolescência e devir, vontades e frustrações, tesão e rejeição. A criatividade a serviço do buraco negro, ou o contrário, se for possível extrair algum tom maior de sua vontade de morrer.

É que Cobain era tóxico, por isso o filme é cansativo a ponto de irritar, mas o diretor Brett Morgen fez um bom trabalho. Sobre um homem como Cobain, o maior ícone de uma geração de apáticos declarados, nada mais simbólico que transformar em animação agitada e barulhenta seu próprio mundo em forma de ficções perturbadoras de homens grávidos, sociedades cáusticas, vida efêmera e incandescente. Os desenhos são dele mesmo. Nos registros em áudio que o filme acessa, ouvem-se os grunhidos de Kurt, riffs de guitarra em fitas cassete: um mundo inteiro de diálogos imaginários guardados no armário de casa. Fúria virando arte.

Foram oito anos de pesquisa de campo e entrevistas, com material farto à disposição. Diários, cadernos, fitas, vídeos caseiros, fotos, gravações, bastidores de shows. Uma cacetada de memorabília abençoada pelos pais, a irmã, a filha, a viúva (que se parece cada vez mais com a roqueira Stevie Nicks) e os colegas de banda — Dave Grohl alega ter estado em turnê durante a temporada de entrevistas, chegou tarde e seu depoimento ficou de fora (a rusga com Courtney Love ficou mesmo para trás?).

Descobre-se, vinte anos após a morte, que Kurt era hiperativo e que a mãe tentou aplacar a onda do menino, 5 anos de idade à época, com alguma droga semelhante à ritalina, receitada pelo psicólogo. Kurt ficou doidão e irreconhecível, a mãe se assustou com o comportamento do filho e nunca mais o drogou.

Antes de se apaixonar por Courtney Love, o maior acontecimento da vida de Kurt havia sido o divórcio dos pais. Um resto da mágoa persiste entre eles nas entrevistas, e o jeito como o documentário caminha dá as consequências: a rebeldia de Kurt, a primeira tentativa de suicídio na linha do trem (a locomotiva desviou a rota no último instante), o deslocamento em relação à escola, empregos de ocasião e a rejeição dos parentes, as dores de estômago que lhe faziam gritar de dor — inflamação de onde Cobain possivelmente forjou uma voz de cantor bruto, que lhe envelhecesse o rosto bonito, coberto de espinhas. A automedicação e as drogas começaram aí: primeiro os analgésicos e a maconha para passar a dor de estômago, depois a fuga pela heroína.

Não dá para saber em que momento a música entra definitivamente na vida de Cobain, o moleque que dizia as piores coisas em cima de melodias de punk rock, embora o Nirvana seja pouco mais que um veículo para expressar sua raiva e ele não sinta especial prazer em subir ao palco (sua carta de despedida cita a alegria genuína de Freddie Mercury em frente da multidão, algo que Cobain diz invejar e admirar). A música não lhe oferece muita redenção ou alento.

A explosão do Nirvana lhe encheria o bolso de dinheiro e seu sonho, de acordo com Courtney Love, era fazer 3 milhões de dólares, cair fora e passar a vida como um junkie. O quadro não melhora muito depois que ela entra em cena. Vídeos caseiros mostram o casal em momentos de intimidade, entre beijos felizes, tiques, ausências e papo de drogados. Em uma das cenas, o casal toma banho de banheira com a filha recém-nascida Frances Bean, e Cobain a nina, brinca, beija, vidrado numa ternura triste, na pira da abstinência ou alterado de droga. O documentário carrega na montanha-russa emocional de Cobain e, pelo excesso de ferida aberta, mostra-o íntegro e definitivo. Haja estômago (e paciência).

* Imagem: foto de Kurt Cobain por Michel Linssen/Redferns

Olívia Fraga
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