Textos

03 de junho de 2015

Os Pássaros

Quem é que liga para informação e notícia? Quem se importa em saber o que, como, onde, quando e por quê? É pra rir com esse monte de pergunta?

Nós leitores somos muito poucos, amigos.

Essa nuvem que prometia ser a biblioteca de Jorge Luis Borges não passa de ilusão. Que ninguém se iluda, eu não me iludo: é provável que nem ao menos cinco almas tenha entendido o que eu quis dizer com nuvem, biblioteca e Borges.

Não me venham com o papo do deixa disso. Vocês sabem muito bem que o que fazemos todos os dias é tudo, menos ler. Encaramos o azul do Facebook e suas aberrações em forma de texto escrito — um erro de português por linha, três erros de informação por frase. Não existe checagem, ninguém confirma, mas uma legião de maus leitores (#somostodos) acredita. Acredita? Até o sentido dos verbos precisa ser revisto. As pessoas curtem e compartilham, ironizam ou sacralizam, uma masturbação informativa diária e morta-viva. Tudo é opinião e nulidade, umbigo de fora e tristeza.

Degringolou rápido. O abismo criado por 20 anos de acesso a celular, geladeira, iogurte e plano odontológico, misturado a nenhum apreço pela educação, só podia resultar neste desastre falastrão e surdo. Ninguém entende o fluxo e o problema é sempre dos outros. Direto da minha janelinha de cadeia, apregoo que às segundas-feiras tem textão de Eliane Brum e de terça e quarta leio os cronistas espertinhos e engraçados falando para um rebanho crédulo e sectário, verde-amarelo e vermelhinho. Meia dúzia de jornalistas é morta no interior do país. Uma tribo de vigilantes prega entre os seus e para os seus. Não há diálogo nem na vida e muito menos na rede social, que direciona, como querem os algoritmos, os milhões de megafones para insones e distraídos.

 

* Imagem: colagem de Audrey Smith.

Olívia Fraga
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