Textos

03 de abril de 2014

O lixo que não vemos

Transferimos a lógica de consumo atual para nossas vidas. O mundo dos objetos descartáveis tornou-se o mundo das pessoas descartáveis. E, assim como os objetos têm um lixo, nós também temos o nosso: toneladas de lixo emocional.

O emocional não fede, mas incomoda igualmente. Há um cheiro de vazio. Da falta de conexão com as pessoas, da superficialidade dos relacionamentos.

Nosso lixo é feito de relações. Todas eternas. Pelo menos até que a bateria, 3G, operadora ou o próximo match aguente.

Nosso lixo vai além dos relacionamentos wi-fi. Também funciona com amigos, trabalho e roupas da última estação. Tudo é descartável e nivelado de acordo com conexões afetivas de igual valor.

Nosso lixo é feito de liberdade. Mal usada ou não, mas é. Mostra tudo que não escolhemos. E, geralmente, optamos em não escolher. É mais fácil partir para um “produto” novo do que viver com aquele defeitinho.

Mudamos nosso comportamento em sociedade e passamos a produzir esse novo lixo. Um lixo que nos dá a liberdade de descartar qualquer um com muita facilidade. Perceba, com a vasta capacidade de se conectar veio a ampla habilidade de não se aprofundar. E o clique do deletar é muito mais simples que o olho no olho na hora do adeus.

E, assim como o lixo dos produtos teve seu destino traçado com a reciclagem, qual será o destino do nosso lixo? Vamos aprender a descartar as pessoas certas? Vamos descartar todos? Vamos aprender a reutilizar as pessoas que uma vez foram descartadas? Para onde caminharemos com esse lixo todo?

 

* Ilustração: Domingos Octaviano (aka MINGAO), para a Confeitaria.

Paulo Amaral
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