Textos

30 de abril de 2014

Verdades também envelhecem

“Ah, mas ele é velhinho e não vai mudar de ideia a esta altura da vida”.

Quantas vezes ouvimos essa frase?

Isso é um pensamento de dar calafrios.

Envelhecer e achar que nada pode mudar me soa incompreensível depois de ver a vida se transformar tanto durante os anos. É aí que mora o problema, parece que em algum momento decidimos assumir algumas “verdades” como algo absoluto e imutável.

Por muito tempo na história já assumimos algumas verdades como absolutas. E a verdade mais absoluta de todas é a de que nada era verdade. E a vida que não é nada sutil se encarrega de derrubar uma por uma, como quem fala: “sério, humanidade, mais uma vez?” Repetimos o erro de considerar que verdades não são transitórias há séculos. Paulo Leminski que me desculpe, mas nesse caso, o erro não tem vez.

Por que em vez de chegarmos lá na frente como velhos cabeças duras, não nos é dado essa noção bem cedo? A relatividade da verdade deveria estar lá na base da formação humana, onde o principal é saber que tudo muda e tudo é questionável. É ensinar que o melhor a fazer hoje é ter desapego daquilo que sabemos. Não jogar fora, mas pôr em questão permanente. Ter uma curiosidade compulsiva para perguntar como tudo funciona. Duvidar de tudo. Inclusive do velhinho que aparenta não mudar de idéia. Às vezes, ele é afim.

 

* Ilustração: Domingos Octaviano (aka MINGAO), para a Confeitaria.

Paulo Amaral
Leia mais textos de Paulo aqui.