Textos

23 de fevereiro de 2015

Post Scriptum

I.

Fiquei feliz quando ela me procurou. Estranhei, é claro. Afinal, foi ela quem terminou o nosso namoro, e sem nunca me explicar o motivo. Ou, se explicou, confesso que não entendi. De onde eu vi, ela simplesmente terminou e ponto final.

Marcamos em um boteco próximo à avenida Paulista – escolha dela, é claro. No fundo, era um ponto neutro: nem próximo da minha casa, nem da dela. Ainda por cima, novo. Não traria lembranças a nenhum de nós.

Não que eu tivesse más lembranças dela, pelo contrário. Por isso, talvez, estivesse tão feliz e ansioso só de saber que iria revê-la.

Uma coisa é enfrentar o Leão da Neméia ou enfrentar a Hidra de Lerna. Outra é passar uma semana olhando no relógio e aguardando ansiosamente por isso.

Mas o tempo, esse canalha que passa a seu bel-prazer, finalmente passou e eu fui. Ela já estava lá. Bêbada. Linda como o sol, clara como a luz, rara como um cometa que só passa a cada 86 anos e olhe lá. E mais magra. Tão mais magra que eu me assustei. Parecia que ela ia quebrar se suspirasse. Passado o susto, a estranheza. Era quase como olhar para outra pessoa, tamanha a diferença. Mas não era outra pessoa, era ela.

Abraços, beijos, como vão seus pais, bem e os seus. Protocolo cumprido, vamos ao que interessa. Olhos vermelhos. Sim, ela ia chorar, como às vezes chorava depois do amor ou durante um filme. Chorava dormindo, e nunca se lembrava por que ao acordar. Não chorou no dia em que nos separamos. Mas estava chorando ali, naquele instante.

Chorou sozinha por dez minutos, até finalmente requisitar o auxílio do meu ombro. Linda, clara, rara e orgulhosa. Exceto pela magreza assustadora, poderia dizer que não mudara. Mas era impossível olhar para aquela pessoa assim tão magra e dizer que ainda era a mesma de dois anos atrás.

Contive meu carinho instintivo, minha mão que ia automaticamente para seu rosto. Nas vezes em que nos vimos após a separação, ela reagiu com violência às minhas tentativas de carinho. Até eu aprender. E eu havia aprendido. Por isso, não moveria a minha mão. A mágoa racional por ter tido um mero carinho rejeitado veementemente tantos meses atrás era maior do que o carinho irracional que tentava mover meus músculos. Rancoroso. Infantilmente rancoroso. Inevitavelmente rancoroso.

Ela, finalmente, parou de soluçar. Alguns minutos depois, interrompeu o choro. Ergueu-se do meu ombro, limpou o rosto e só então, finalmente, encarou-me com seus olhos vermelhos.

Do meu lado, eu tentava não demonstrar pena, certo de que a irritaria. Nem pena, nem cumplicidade. Nenhum sentimento. Acima de tudo, eu não podia deixar que ela percebesse o quanto meu coração acelerou a partir do momento que eu entrei naquele boteco, simplesmente por causa da presença dela. Meu rosto teria de ser uma máscara, uma estátua, a face de um ator interpretando a mim mesmo.

Olhei com a cara mais neutra que podia, ciente de que ela me conhecia bem demais e sabia exatamente o que eu estava sentindo, quiçá o que eu estava pensando. Mas ela não parecia se importar com isso. Ela estava concentrada demais no que iria me dizer, e em reunir forças para começar a falar.

Ela falou. Tanto, e tão rápido, que as frases pareciam palavras e as palavras, sílabas. Mas isso não importava. Nada mais importava, nem mesmo o que ela dizia, após aquela primeira frase. Não consegui prestar atenção em mais nada. Eu só sentia aquela primeira frase entranhando-se em mim.

— O que eu tenho não tem cura.

II.

O enterro foi bonito e simples, como ela queria. Algumas pessoas bateram palmas quando o caixão desceu. O pai dela recitou alguns versos do Pessoa, mas eu não prestei atenção. Também não ouvi quando um ex-namorado leu uma poesia que ela mesma teria escrito sobre a morte.

Ouvi dizer que a ansiedade antes da picada é mais aflitiva do que a própria picada. Que não devemos nos apavorar, que sempre ampliamos o que vamos sentir, pessimistas que somos. Pensei que a tristeza que eu sentiria ao ver as pás cobrindo seu caixão de terra seria gigantesca. E foi muito pior.

Sentia algumas pessoas passando por mim e me dando pêsames. Não via, nem ouvia. Apenas sentia alguém me dando um abraço, um beijo, apertando a minha mão. Acho que elogiaram a minha coragem. Alguém me perguntou por que eu me casei com ela, sabendo que ficaria viúvo tão em breve. Uma pergunta estúpida como essa merecia o silêncio como resposta.

Esperei que todos saíssem. O padre também veio ter comigo. Acho que era alguma coisa do Sermão da Montanha, mas não tenho certeza. Quando todos foram embora, fiquei sozinho com os dois coveiros, que ainda trabalhavam. Olhava a luz do dia, aquele dia claro, aquele céu limpo, e me perguntei se havia aprendido alguma lição. Respirei fundo e repeti a pergunta para mim mesmo.

Não havia lição. Não havia resposta. Não haveria a chance de revê-la. Os dois meses do nosso casamento foram curtos, mas acho que teriam sido curtos ainda que fossem 80 anos. Eu não podia fazer mais nada, exceto olhar os coveiros trabalharem e esperar. Eu ainda queria falar com ela em particular.

Esperei não apenas que eles fossem embora, mas que sumissem no horizonte. E só então me ajoelhei. Foram duas promessas. Retornaria no seu aniversário de nascimento e no nosso de casamento. E não a esqueceria.

Não a esqueceria. Sua pele branca, sua jeito extrovertido que parecia loucura, sua maneira de falar que sempre fazia com que fosse notada, seus devaneios, seu amor pela vida, suas crises de ciúme, seu jeito de fazer amor, suas repentinas mudanças de humor. Seus amigos, seus ex-namorados, sua família, aquele universo que existia ao redor dela, e que provavelmente continuaria existindo, mas de outra maneira.

Principalmente, não esqueceria aquele encontro no boteco na qual jamais retornarei, e onde ouvi:

— Minha vida já acabou. Por favor, apesar de tudo o que eu fiz, eu imploro: fique comigo durante o post scriptum.

 

* Imagem: Trecho de Crying Girl, de Roy Lichtenstein (1964).

Pedro Cirne
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