Textos

13 de março de 2014

Ilustração:
Thiago Thomé

Uma história de amor

Quando nós nos conhecemos, ela já tinha morrido. E, sim, esta é uma história de amor.

Eu estava em um restaurante na primeira vez em que a vi. Eu estava almoçando com a minha família e ouvi alguém assobiando Lou Reed. Olhei para o lado e lá estava: pequena, doce, meiga. Dez anos, no máximo. E cantarolando “She says, hey babe, take a walk on the wild side” .

Inclinei-me em sua direção. Perguntei o nome e a idade, e ela apenas sorria e cantava. Virou-se de costas e foi embora. Voltei-me para meu irmão e ele estava com um olhar surpreso. Perguntou-me com quem eu conversava — não havia visto a menina.

Na semana seguinte, eu voltei ao restaurante, desta vez sozinho. Sentei-me na mesma mesa, pedi o mesmo macarrão. Almocei sozinho, olhando para os lados. Chamei os garçons, descrevi a menina. Ninguém a conhecia, fui embora decepcionado.

O segundo encontro aconteceu em uma livraria. Eu estava em pé, sozinho, folheando. E ouvi o mesmo assobio “doo, doo, doo, doo…”. Lou Reed. Olhei para o lado e lá estava ela. Mãos para trás, sorrindo, olhando para mim.

Abaixei-me. Perguntei seu nome, sua idade, o que ela estava fazendo lá. Ela riu de mim, da minha curiosidade. Mas respondeu que estava se sentindo sozinha, e que queria alguém para conversar. Eu perguntei dos pais dela, se eu podia conhecê-los. Afinal, eu queria conhecer aquela menina, mas, acho que, se eu tivesse uma menina de 10 anos e a visse tomando refrigerante com um completo estranho, ia ficar… receoso.

Ela não tinha pais. Pelo menos, foi o que me disse. Virou as costas e deixou a livraria, correndo. Guardei o livro e a segui, mas quando saí, ela já tinha desaparecido.

Fui conversar com a vendedora que me atendia, se ela já tinha visto aquela menina em algum lugar. Que menina, perguntou-me ela. Não fiquei surpreso.

Naquela noite, sonhei com ela. Ela estava longe de mim, correndo e eu não a alcançava. Naquela noite, eu tive certeza que o nome dela era Alice.

Acordei e consultei o meu Lewis Carroll.

“Cuidado, ó filho, com o Pargarávio prisco!
Os dentes que mordem, as garras que fincam!”

O terceiro encontro ocorreu um pouco mais de um mês após o primeiro. Eu estava em casa, sozinho, escrevendo um conto no computador. Virei-me para pegar meu copo de cerveja e ela estava sentada no chão. Ela sorriu e começou a cantar “hey, baby, take a walk to the wild side…”
E nós conversamos. Ela me contou que havia morrido, mas que não se lembrava de quando, nem como. E que, desde então, ela caminhava assobiando aquela música, a única de que se lembrava. E que eu fui o primeiro a reparar na existência dela. Mas que, por algum motivo, ela não conseguia ficar muito tempo ao meu lado.

E sumiu.

Sete longos dias.

E a encontrei em uma festa. Na verdade, primeiro eu ouvi a melodia, e vinha de um convidado, que carregava um copo de champanhe e cantarolava. Olhei próximo a ele e ela estava lá, aguardando ser encontrada.

Sentei ao seu lado e não abri a boca, apenas pisquei. Ela sentou-se ao meu lado e falou. De músicas, assobios, das pessoas que ela observava. Pessoas engraçadas, tristes, solitárias. Mas ninguém como ela. E ninguém como eu. Ela levantou-se, deu-me um beijo no rosto, piscou o olho esquerdo e sumiu.

E passamos a nos encontrar quase todas as semanas. Havia sempre um sinal — alguém cantando, uma música na danceteria, um caderno aberto com certos versos rabiscados. Algumas vezes ela era até mais ousada, eu diria. Como em um sábado de muita chuva, eu sozinho em casa. Olhei para a janela e vi os versos lá, escritos a dedo na água que a chuva deixara na janela, como um convite. “Hey babe, take a walk on the wild side…”

Nossos encontros não ficaram mais freqüentes ou longos. Apenas uma vez por semana, se tanto, e de 15 a 20 minutos, no máximo. Mas ficaram mais profundos. Quando nos encontrávamos em público, e eu não queria que as pessoas se confundissem e achassem que estava falando sozinho, era a vez de ela falar. Se não havia ninguém por perto, entretanto, era a minha chance. Não só de falar, mas de abrir mesmo. De confiar em alguém, de expor meus medos (e quantos medos eu tenho), minhas derrotas, minhas raivas.

E ela ouvia. Depois se levantava, dava-me um sorriso e um beijo no rosto, antes de sumir. Como um ritual.

Eu tinha 20 anos na primeira vez em que a vi. Ela, aparentemente, dez. Cinco anos depois, ela tinha a mesma aparência, enquanto eu, obviamente, não. Dois empregos, três namoradas e muitos quilos depois, eu estava diferente. Nem melhor, nem pior. Apenas uma pessoa diferente.

E eu estava lá, deixando o cinema sozinho. Um copo de refrigerante na mão, as últimas imagens do filme na cabeça. E ela estava lá, na esquina da Paulista com a Consolação. Mas, desta vez, não sorria.

Ela me disse que o tempo dela havia se esgotado. Anos atrás. E que ela devia partir. Mas, de alguma maneira, eu a prendia. Não fisicamente, é claro. Mas pelos meus sentimentos. Um misto de carinho, amizade, pena, às vezes. E algumas coisas a mais.

E eu ouvi. Atentamente, ouvi que eu a prendia. Que eu não sabia olhar para o presente e, com essa minha atitude, prejudicava outras pessoas além de mim. Que eu precisava parar de pensar tanto nela, de escrever sobre ela. (Ela não precisou me pedir para deixar de comentar a seu respeito com as pessoas, porque isso eu nunca fiz, com medo de ser tido como louco.) Que eu precisava deixá-la livre para partir. Que eu não podia me prender tanto a uma imagem do passado.

Ela tinha razão.

“Cuidado, ó filho, com o Pargarávio prisco!
Os dentes que mordem, as garras que fincam!”

Sim, esta é uma história de amor. E, como toda história de amor, não tem um final feliz.

Pedro Cirne
Leia mais textos de Pedro aqui.