Anel de Vidro

Ana Luisa Escorel: a importância da construção narrativa

De Marcel Proust a Rodrigo Fresán, podemos relembrar a ideia de narrativa como o germe da literatura. Ambos os autores — completamente distintos no tempo, espaço e escrita — compreendem o ato de contar uma história de maneira parecida. Para eles, as construções do enredo que circundam os personagens são de extrema importância durante o processo criativo literário. Pessoas são feitas de histórias e contá-las com toda dedicação possível é o mínimo a ser feito. “Vocês não sabem, não estão conscientes, de como são sortudos, de como sempre foram. Vocês não sabem que é um imenso privilégio ter histórias para contar”, escreve Fresán em O Fundo do Céu.

Também a partir dessa escolha, na qual as circunstâncias do que se aspira a transmitir, por meio da escrita, é mais importante do que a estrutura exata dos personagens, está o livro Anel de Vidro, de Ana Luisa Escorel. Em 2014, o romance ganhou o Prêmio SP de Literatura, tornando a escritora (e também designer) a primeira mulher vencedora da premiação. Lançado pela pequena editora Ouro sobre Azul, o livro foi um dos temas da mesa Amor, Verbo Transitivo, apresentada durante a programação oficial da décima terceira edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip.

O romance, centrado em questões que envolvem traição, casamento e família, é composto por quatro vozes narrativas. Dois homens e duas mulheres (não nomeados) inseridos em uma lista de conflitos conjugais sem fim. O tom de alerta aos relacionamentos, em Anel de Vidro, aproxima-se da letra de This Mess We’re In, melancólico dueto interpretado por PJ Harvey e Thom Yorke: “What were you wanting?/ I just want to say/ Don’t ever change no, baby/ And thank you/ I don’t think we will meet again”.

Em entrevista para a Confeitaria, Escorel afirma que se relaciona com as perturbações retratadas no livro de forma triste. Através de uma linguagem austera, a escritora consegue, claramente, transportar tal desgosto ao longo de todos os relatos, como observamos, por exemplo, no trecho: “Mas aí começaram a chegar as cartas, dando bem a dimensão do caos em que estava lançado. Palavra escrita tem disso, engano pouco tanto quem escreve como quem lê e ela não podia evitar a ternura por aquele homem descontínuo, um pedido de ajuda em cada linha, tocasse o assunto que fosse que, em pouco tempo — dois ou três anos apenas — se tornara tão diferente dele mesmo”.

Sobre a sua ideia de construção da trama, explica: “A razão pela qual eu não dei nome aos personagens e nem aos lugares, é que tanto uns quanto outros me interessavam muito menos do que as circunstâncias que eles estavam vivendo. Eu diria que essas situações são os personagens principais do livro, na medida em que os narradores não foram tratados com preocupações psicológicas, e nem as emoções deles me atraíam. O que me interessou em Anel de Vidro foi refletir acerca dos contextos muito corriqueiros vividos pelos personagens”.

De acordo com a autora, o romance vendeu, em um ano e meio, três mil exemplares — número muito significativo e importante para uma jovem editora como a Ouro sobre Azul. “O mercado é problemático para editoras menores. O que se espera é que as grandes editoras vençam sempre os grandes prêmios. O livro começou a vender bastante após o SP de Literatura. Por isso, os selos maiores, com compromissos comerciais muito mais pesados, ficam todos em cima desse tipo de reconhecimento”, observa.

Acerca do pioneirismo de gênero em uma premiação literária importante para o país, Ana Luisa ressalta que, vivendo num mundo potencialmente masculino, uma escritora torna-se sujeita a tendências e ao poder desse universo predominante. “Eu acho que existem menos mulheres escrevendo do que homens porque eles escrevem há séculos. Os homens têm mais tradição na escrita, se atentarmos para a questão temporal. E eu me pergunto se não haverá barreira do machismo em relacionada à produção ficcional feminina”, reflete.

Quando observamos as duas mulheres presentes no livro, chegamos à conclusão de que ambas representam atitudes e comportamentos que aludem à pressão do masculino. Para além das questões que permeiam a infidelidade, Anel de Vidro traz uma abertura às indagações semelhantes levantadas por Escorel ao citar a barreira do machismo. O romance não só como uma análise voltada aos relacionamentos, mas, também, ao debate de gêneros. Temática essa que merece, assim como os detalhes de uma história, toda ação expressiva literária possível.

 

 

* Imagem: Ana Luisa Escorel/Divulgação

Priscilla Campos
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