Jóquei

Linguagem oral e oscilação como impulso da escrita

Encontrei os escritos e a voz de Matilde Campilho antes do Jóquei. A beleza de seus versos era clara, mas o arrebatamento ainda estava por vir. Faz um ano que terminei de ler a compilação de poemas, lançada primeiro em Portugal, seu país de origem. Passei todo este tempo postergando escrever sobre o livro, pois eu não sabia o que dizer. Lembro aqui Sándor Márai: “En la literatura, así como en la vida, sólo el silencio es sincero”. Então, numa tarde nublada, no litoral carioca, conheci a responsável pela frase “os ossinhos do mundo são de mel e de ouro” e a necessidade do não dito chegou ao fim.

Parte das atrações da décima terceira edição da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, Matilde mostrou-se uma figura com aura pop e, ao mesmo tempo, recôndita. Durante a sua fala, percebemos que a atenção dedicada aos pormenores do cosmos, presente em sua ficção, parece alongar-se para o real. “A poesia não salva o mundo, mas salva o minuto. E isso é suficiente”, afirmou. De acordo com a portuguesa, poema é uma coisa que se faz em casa, sozinho. “A poesia é íntima, mesmo que seja malabarista. Jóquei é resultado de um caminho de anos”, disse.

Nos escritos do poeta norte-americano Frank O’Hara, podemos encontrar pistas do que seria o marco zero literário de Matilde. Poems e Today, clássicos do escritor nascido em Baltimore, trazem a forte característica da língua oral, estrutura que tende a despertar um tipo de indecência desconcertante em que a lê. “Light clarity avocado salad in the morning/ after all the terrible things I do how amazing it is/ to find forgiveness and love, not even forgiveness”. A portuguesa, moradora do Rio de Janeiro por muitos anos, declara que apesar de ter estudado literatura, a consciência da sua escrita só aconteceu na rua. Desde pequena, a avó incentivava Matilde a andar pelo tal cosmos de mochila nas costas. E é isso que a poeta parece fazer até hoje.

A ideia do animal selvagem que corre continuamente pelas selvas ou do esportista que encontra no movimento qualquer tipo de salvação formam o ritmo, a estrutura de Jóquei. “Por exemplo/ esqueça Coney Island/ e as trezentas peças/ de metal que compõem/ o jogo mágico de Coney/ Island no mês de agosto/ Lembre da palavra sushi/ sendo gritada no metrô/ quando tudo o que alguém/ queria gritar era sua devoção/ por pedacinhos de prata/ Lembre do meu fascínio/ profundo por desportistas/ noturnos que sincronizam/ a respiração com o batimento/ dos dedos da amante morta”, escreve a portuguesa no poema We Never Did too Much Talking Anyway, um dos escolhidos para ser declamado no decurso da conversa – que também contou com os poetas Carlito Azevedo (mediador) e Mariano Marovatto.

Menos do que encanto com os arredores coletivos, Matilde aparenta um entendimento certeiro (e, na maioria das vezes, esteticamente bem elaborado) do que se passa na ordem do oculto óbvio, aquilo que nem pensamos que existe, mas está todo dia ao lado nosso. Algo como as inúmeras cores que não distinguimos num caleidoscópio ou ainda o comportamento das massas de ar no revelo montanhoso. “Meu querido, as árvores falam. Os tigres correm olimpíadas em pistas muito mais incríveis do que aquelas feitas de cimento laranja”, escreve no poema Primeira hora em que o filho do sol brincou com chumbinhos. Matilde talvez seja a personificação do título Sleeping on the wing, mais um poema de O’Hara: “Once you are helpless, you are free, can you believe/ that? Never to waken to the sad struggle of a face?/ to travel always over some impersonal vastness,/ to be out of, forever, neither in nor for!”. A oscilação é tão costumeira para a portuguesa que dormir é apenas mais uma atividade realizada com pouco equilíbrio.

* Imagem: Walter Craveiro/Divulgação

Priscilla Campos
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