Textos

30 de outubro de 2013

A arte e eu

Quando as pessoas veem meu trabalho, todo mundo espera que eu conte uma super história, que eu desenhava desde pequena e meus melhores amigos na infância eram o lápis e o papel. Que eu não podia ver um papel em branco – ou uma parede – e já começava a rabiscar.
Mas a realidade não era bem assim.

Eu era uma criança tímida que vivia no meu próprio mundinho. Era filha única e passava a maior parte do tempo na casa dos meus avós, porque meus pais trabalhavam o dia todo em um estúdio de animação. Me deixavam lá as 6h e voltavam as 20h pra me buscar. Todo dia.

Eu odiava isso.

Queria estar em casa com meus pais e o trabalho deles me impediam.

Passei 3 anos em cada casa de avós, maternos e paternos, respectivamente. E em ambas, moravam primos meus. Eu sentia como se estivesse invadindo o espaço deles – e eles também sentiam isso.

Eu não me dava bem com eles, então ou eu tentava me adaptar às suas brincadeiras (e não brigar) ou eu tinha que fazer alguma coisa sozinha pra me distrair.

A verdade é que eu preferia ficar sozinha, mas não gostava de me sentir sozinha.

Desenhar me fazia lembrar que meus pais não estavam comigo. Por isso, sempre tentei ocupar minha mente assistindo a desenhos na tv, lendo um livro ou inventando histórias em que eu era a protagonista.

Essa foi minha infância, até os meus 14 anos. Depois meu pai virou freelancer e eu comecei a passar mais tempo com ele.

Esses dias, fiquei refletindo porque demorei tanto a me interessar pela arte. Em querer desenhar, pintar e seguir os passos da minha família tão tarde. Descobri que eu tinha ciúmes: eu não queria dividir meus pais com a arte porque ela os roubava de mim.

Foi depois que meu pai começou a trabalhar em casa que eu fiz as pazes com ela e comecei a desenhar, fazer as capas dos meus cadernos, a me descobrir como “artista” – eu era muito nova pra ter certeza.

Resolvi levar mais a sério, aperfeiçoar meu traço, achar minha personalidade e etc só na faculdade, 18 anos depois dos meus pais me colocarem no mundo! 18 anos depois de eu viver e ver arte todos os dias.

E no fim das contas, a coisa mais engraçada é que foi essa mesma arte que fez, depois, com que eu me aproximasse dos meus pais. Que fez com que esse “gap” de 6 anos na casa dos meus avós desaparecesse.

Hoje em dia, passamos horas conversando sobre carreira, sobre minhas dúvidas em relação aos caminhos que estou seguindo, entre outras coisinhas.

No fim, o que eu tinha medo que me separasse deles só nos uniu.

 

* Imagem: Renata Miwa com 4 anos, em casa, com a pintura do seu pai ao fundo.

Renata Miwa
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