Textos

11 de novembro de 2013

20 anos

Eu me lembro da primeira vez que te vi.
Você entrou na sala, atrasada como sempre estaria nos anos que se seguiriam. Um pouco envergonhada, pedindo desculpas, só faltou derrubar o estojo. Deslizou como uma fada até uma cadeira. Meu coração disparou, como sempre estaria nos anos que se seguiriam.

Eu não me lembro bem da primeira vez que a gente conversou, acho que foi lá perto do varal, que a gente chamava de “cuecas. Mas lembro que quis você pra mim. Não tinha ninguém como você. Nem Carol do terceiro ano, nem islandesa que trazia maconha, nem professora de literatura sadomasoquista.

Eu queria. Queria o suficiente pra ser uma daquelas maldições em que, se ao menos não quisesse tanto, você até poderia ter. O meu querer era tão avassalador que complicou qualquer chance. Isso e, claro, aquela amiga bem intencionada. Teve uma festa junina que eu realmente achei que ia rolar, mas ela ficou dando tanta força pra a história que matou qualquer chance de naturalidade e clima. Eu gosto de pensar que foi isso.

E cada dia que você entrava na sala, atrasada, eu torcia pra você sentar perto de mim. Pra eu olhar pro seu cabelo e pra sua nuca. Pra eu respirar fundo e sentir seu cheiro, embriagado. Pra respirar o mesmo ar que você. Pra finalmente falar alguma coisa, que eu nunca soube o que era, mas que poderia finalmente fazer toda a diferença. Eu gosto de pensar que faltou essa coisa.

Lembro de um aniversário seu, que eu comprei um quadro de uma foquinha lacrimejando, do Talbot. Dizia “save us”. Eu era jovem e isso eram os anos noventa. O cartão era uma colagem de quadrinhos do Laerte, do Flying Cat. Os computadores não tinham sido inventados e eu troquei algumas palavras na hora de xerocar mesmo, pra ficar mais parecido com o que eu queria dizer. Cheguei lá achando que dessa vez ia virar a maré. Mas vi horrorizado que fui o único a trazer presente, que o presente era um trambolho enorme, e que todo mundo lá viu o trambolho e as tirinhas, amigos, sua família e até os boxers. Morri de vergonha, deveria ter entregue outro dia. Gosto de pensar que foi por causa do constrangimento.

Lembro de quando fomos pro seu sítio, a turma toda. Eu fazia kung fu e mostrei pra um amigo um pulo com chute, acertando um limão pendurado bem alto na árvore, quase orgulhoso. Você me olhou desapontada e brava e mandou eu parar de vandalizar a sua árvore. Fiquei morrendo de raiva de mim mesmo, achando que terminei de ferrar tudo de vez. O peso do mundo nas costas, e nada de “se a vida te dá um limão…”.

Eu me lembro, muito bem, de quando rolou de verdade pela primeira vez. A gente tinha tomado um vinho. Eu acho que nunca fui tão feliz quanto nesse dia. Eu saí de lá flutuando, pisando em plumas, com uma alegria que não cabia em mim. Uma que eu acho que nunca deixei de buscar em outras relações. Não sei se era amor, euforia, alívio, vitória, o próprio Everest. Feliz. Depois a menina que morava com você me contou que você também acordou assim, com um sorriso inabalável. Eu nunca entendi porque as coisas não rolaram dessa vez…. porque a gente era amigo… porque é complicado na faculdade… porque foi bom, mas você talvez tivesse apenas cedido, ou concedido, e depois o momento passou, ou nunca veio, ou era eu. Eu gosto de pensar que era a faculdade.

E nesses anos todos, como eu sofria. Claro que não ter você, e querer mais que tudo, era um pesadelo na terra, o contrário do budismo, o ápice do apego, mas a gente faz o próprio inferno, e eu vivia uma vida de herói romântico do século 19. Talvez eu até gostasse de sofrer tanto, por masoquismo, por poesia, por estar apaixonado por estar apaixonado. “You can get used to a certain kind of sadness”.

Lembro quando a gente se viu em Miami, que me deu uma sensação louca de que dessa vez ia. Lembro da nossa longa conversa no carro, aliás talvez parecida com essa carta, em que a gente revisitou a nossa história, e não víamos a hora de nos beijar, e fomos praquele apartamento bagunçadinho onde você morava. Foi ótimo, mas também não foi dessa vez.

Lembro de Nova York, que me deu uma sensação louca que dessa vez ia. Lembro que no primeiro dia parecíamos dois apaixonados, uma conexão incrível, uma ternura tão quentinha que com certeza é a responsável pelo aquecimento global. Foi lindo, mas, no segundo dia, não. Você se desconectou, quase que literalmente, e te vi como uma astronauta flutuando no espaço, cada vez um pouco mais longe da nave. Continuamos abraçados o resto do fim de semana. Fiquei me perguntando se a gente tinha se iludido e depois caído na realidade. Se fomos tomados de medo. Ou, mais provavelmente, se você não tinha se encantado um pouco, não por mim, mas pelos meus sentimentos. Pensando que talvez você não gostasse de mim desse jeito, ou de sexo, ou comigo, ou sei lá. Gosto de pensar que ou sei lá.

Ao longo dos anos, quase vinte, vi você com uma sucessão de namoradinhos, o Pernambuco, o Ceará, o Batata, um esquisito que só pode ser gay, o alto, o baixo, o careca, o cabeludo, o idoso, o menino, um mais diferente do outro, mas em comum eles sempre tiveram uma coisa, além, é claro, de você: o fato que eu detestei todos eles. Todos. Porque nenhum deles era eu. Porque todos eles pareciam abaixo de você, muito aquém do que você merecia. Porque eles sempre me pareceram uma concessão sua. E porque nas fases que você namora a gente sempre se vê muito menos.

Vinte anos. Eu nunca soube, e ainda não sei, se eu era o que você merecia. Ou precisava. Se você seria feliz comigo. Se a gente daria mesmo certo junto. Se a gente ia se tolerar e virar velhinhos ranzinzas que não vivem um sem o outro, ou se a minha idiossincrasia e a sua iam virar uma bola de neve digna de pesadelo.

E hoje, toda vez que a gente se encontra, eu fico feliz. Tão feliz que eu me pergunto, se a gente acordasse junto todo dia, quanto tempo demoraria pra cansar disso. Dias? Anos? Nunca? Será que a gente acordaria todo dia (ou quase, porque ninguém é de ferro e as pessoas são difíceis), pensando porque a gente demorou tanto? Ou um dia, cúmplices e sorrindo, a gente acordaria e diria “erramos, né?” e começaríamos a rir e fazer a mala, em uma despedida leve e doce, sem aqueles estresses de término. Ou talvez você me esfaqueasse. Gosto de pensar que você não me esfaquearia.

Não sei se eu gostaria intencionalmente de ser apaixonado por você. Ou perceber que, na verdade, eu nunca deixei de ser apaixonado por você. Ou de me dar conta que essa amizade tão profunda e densa, que resiste aos anos, à distância, aos desencontros, e mais ainda, aos encontros, de tão bonita e especial, se confunde com paixão e amor, se é que alguém pode explicar a fundo onde termina um e começa outro.

Mas uma coisa eu sei: que não importa a cidade, o contexto, o ano. Que toda vez que eu te vejo, sou tomado de encantamento e o meu coração dispara, como no primeiro dia que eu te vi entrando atrasada. Que nem me importa tanto se as coisas forem pra um lado ou pro outro desde que você não suma de mim. E que a gente deveria mesmo ir tomar uma garrafa de vinho. Ou duas, dessa vez.

PS: Acho que talvez nunca te entregue essa carta. Não gosto nem de pensar nisso.

 

* Imagem: Max Sauter.

Renato Kaufmann
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