Textos

30 de agosto de 2012

João

João saiu, correu, andou, de repente estava lá. Horas passadas, era longe pra burro – como uma mulher vai morar assim tão longe? Nem ônibus tinha, mas João, ah, João iria até o fim do mundo, e não mais além apenas porque já era o fim.

A casa estava lotada de vazio, assim como quando as ausências se fazem sentir tão presentes. O único ser vivo, um gato, planava lentamente pelo assoalho, e a samambaia, que até uma hora atrás era o outro ser vivo da casa, revelou-se vingativamente indigesta.

O vento, em todo lado como sempre está, passou por João, pela casa, pelo gato e nem ligou. Vento não liga. O vento é dono do sol, que nasce pra todos, mas é mais dele.

A mulher não estava onde deveria estar, e não que ela devesse estar em algum lugar, ora essa, mas João sabia que ela estaria lá. E não estava, prova de que saber não basta. Em última instância, nada basta, nem escrever. Mas chega de vazios desse tipo, porque o único lacaniano da história é o gato, e gato não fala. Apenas – veja que irônico – mia laconicamente.

Sem nunca ter deixado de estar na presença do vento, e sem que o vento soubesse (vento não sabe), João sentiu-se muito só ao chegar naquela casa e encontrar apenas um gato estranho arrotando samambaia. Ele se deu conta de que o vento que o acompanhava chegaria nela também, se é que lá já não estava, e por dois segundos pensou em mandar uma mensagem pelo vento, como um Neruda. Logo desistiu: vento não manda mensagem, e se mandasse, sabe-se lá o que chegaria. Todo mundo sabe que o vento distorce as palavras.

Ainda na casa, João ficou com sono. O gato desapareceu sabe-se lá pra onde. E quanto mais chegava o sono, João percebia os lençóis brancos empoeirados sobre os móveis, as trilhas de pé de gato no pó do chão, e como aquele tapetinho parecia confortável e acolhedor…

Quando, na volta, o gato viu o sujeito no seu tapete preferido, não teve dúvidas e protestou. Lacônico que era, não soltou sequer um miau, foi quase um mi, e o cidadão nem se mexeu. Ou, ainda, mexeu porque parecia estar tendo pesadelos terríveis, mas acordar que é bom, nada.

E João teve esse sonho, em que era quem era, estava onde estava e procurava quem não podia ser encontrada, e pegava no sono em um tapete feio e tinha pesadelos, só que nesse tinha um gato olhando pra ele com cara de quem vai fazer maldade, ou que ia dizer alguma coisa. Entretanto, o gato abriu a boca e disse apenas “mi”. Como assim “mi”?, desesperou o João do sonho, querendo entender o sentido oculto por trás de tão curto miado. Levantou e correu atrás do bichano onírico.

João do sonho tropeçou e, no susto mioclônico, acabou acordando para a mesma cena que sonhava, e amaldiçoou todos os sábios chineses, incluindo os japoneses, que são descendentes distantes dos chineses, e as borboletas, incluindo as lagartas, que são antecessoras das borboletas, e obviamente os furacões em continentes distantes que, como todos sabem, são causados por alguma maldade intrínseca dos lepidópteros.

O gato continuou com cara de quem comeu e não gostou (pra samambaia ninguém nunca pergunta nada). Então, João considerou amaldiçoar também os gatos, os egípcios e os ingleses, mas, se continuasse assim, a lista seria enorme.

Já era noite, apagada de estrelas como a casa de luzes, e João achou a saída com extrema dificuldade, auxiliado, talvez, pelo barulho do vento, que estava na hora de fazer algo útil além de distorcer palavras, polinizar abelhas, torcer juncos e arrancar carvalhos.

Do lado de fora, a luz amarelada dos postes emanava um quê de Van Gogh, e a poeira da casa, bem instalada entre pálpebras, dava uma coceira cega.

João mexeu nos bolsos e sentiu algo que parecia uma samambaia depois de ser processada por um estômago. Começou a suar frio.

João saiu, correu, andou. De repente, já não estava lá.

 

Renato Kaufmann
Leia mais textos de Renato aqui.